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E o inferno na terra teve um nome: Pedrógão Grande

E o inferno na terra teve um nome: Pedrógão Grande

Diana Tinoco Ana B. Carvalho e Sebastião Bugalho 19/06/2017 08:18

Depois de uma tarde passada na praia das Rocas, os automobilistas que regressavam a casa viram-se apanhados numa armadilha de fumo e chamas. As autoridades atribuem as culpas da tragédia à trovoada seca, mas a ideia de fogo posto não abandona as mentes de muitos locais

Da noite de sábado até à hora do fecho desta edição, um gigantesco incêndio consumiu quase totalmente a terra do distrito de Leiria. O fogo tem várias frentes e vem a alastrar para o concelho vizinho de Castanheira de Pera, assim como continua bem ameaçador para Figueiró dos Vinhos.

Os números oficiais da tragédia vão em 61 mortos, 62 feridos (dez operacionais e dois em estado grave). Cinco aldeias foram evacuadas e os meios aéreos foram reforçados em cooperação com países amigos. O governo anunciou ontem à tarde o reforço de meios terrestres por via espanhola (100 operacionais). As Forças Armadas Portuguesas também foram chamadas a dar o seu contributo no terreno.

Culpam-se o vento, o calor e as trovoadas secas, mas a suspeita, embora desmentida ontem pela Polícia Judiciária, de que os vários fogos teriam sido postos não abandona a mente dos locais ouvidos pelo i. “Não tenha dúvidas, tantos fogos ao mesmo tempo e em sítios diferentes só quer dizer uma coisa”, aponta Mariano Anjos, motorista de táxi natural da zona.

O cenário é de devastação, quase pós-bélica. Postes de eletricidade caídos, com os cabos a fazerem de lombas na estrada, a sinalética rodoviária consumida pelas chamas, ilegível e pintada com o negro do fumo. O céu ainda reflete a cor do fogo e o nevoeiro está carregado de cinzas. “Não temos água, não temos nada”, diz, entre lágrimas, um aldeão de Nodeirinho. A luz está inativa há mais de um dia, o acesso à água impossibilitado, e a rede móvel quase inexistente. Os sobreviventes estão sujeitos ao inóspito. A paisagem reduziu-se às sirenes sem cessar.

O chão ferve e queima a sola dos sapatos, a vida animal transtorna-se com isso: formigas atarantadas, abelhas perdidas e pássaros caídos. “As aves morreram todas. Todas”, diz o mesmo aldeão.

A falta de água e o calor também atacam as equipas de bombeiros voluntários. Um deles é obrigado a beber do lago de uma rotunda; água morna e suja, que não chega para lhe matar a sede. Trabalhava há 23 horas consecutivas.

A estrada é marcada por um compasso de carros carbonizados; uns abandonados, outros por abandonar. Largados em plena via, encostados na berma, despistados uns nos outros. Durante a noite, a maioria dos cadáveres dos que não conseguiram escapar foram recolhidos. Alguns ficaram e a Guarda Nacional Republicana vedou o acesso à sua contemplação a todos, incluindo locais, que não fossem polícia forense.

O i sabe que o pânico da madrugada, com a escuridão da noite e a concentração de fumo, cegou os automobilistas presos entre as labaredas. Uns abandonaram os veículos e tentaram a sua sorte a pé, outros aceleraram sem saber para onde, alguns, poucos, conseguiram chegar a casa. E a casa nem sempre chegou para ser salvação. Devido à falta de visibilidade, muitos foragidos ao fogo acabaram por ser abalroados por carros também em fuga. O resultado foram corpos que o calor colou ao alcatrão ou ao banco do condutor. Um deles, de um rapaz de apenas quatro anos. “Ele só tinha quatro aninhos. Nunca fez mal a ninguém”, lamenta a tia, que consola ao irmão ao mesmo tempo.

O exemplo mais relembrado como ponto de comparação é um incêndio de 1987, mas que não terá tido mortos ou viaturas carbonizadas. “Ardeu tudo, mas não matou ninguém”, recorda uma popular.

Eduardo das Dores Abreu está encostado a um muro, onde um passarinho, outrora vivo, descansa. “Nunca vi nada assim”, desabafa em lágrimas.

O muro a que Eduardo das Dores Abreu se encosta fica na Rua da Alegria, um contraste demasiado bruto com o que se sente quando se lá passa. “Houve aqui há uns 20 e tal anos um incêndio grande, mas não ardiam casas, nem carros, nem morreram pessoas.” Um carro destruído e abandonado encontra-se no entroncamento em frente à casa de Eduardo. As portas abertas deixam pistas de que pode ter-se dado uma possível fuga. “Imagino que tenham fugido, mas não vi nada, não conseguíamos ver nada, havia chamas por todo lado, foi uma sorte não ter morrido.”

Numa carrinha chega Paulo Costa, de 55 anos. Vive em Leiria, mas os pais têm casa em Figueiró. Para em frente a Eduardo, sai do carro para atualizar informações: “Estive aqui desde as duas da tarde de ontem sozinho, sem bombeiros, sem nada, só com uma mangueira para tentar que a casa dos meus pais não ardesse.” Eduardo lamenta a situação, mas garante a Paulo que teve sorte, por aqueles lados a situação foi mais agressiva, já que ficaram desde cedo “sem luz e sem água”. Eduardo conta que ao regressar da pesca só teve tempo de salvar os animais enquanto a esposa se escondia na casa de banho.

Paulo, que conhece a área há décadas, não acredita que tudo isto aconteceu “Ainda agora ao vir para aqui passei por um corpo estendido no meio da estrada. As autoridades estão a dizer que foi da trovoada seca, mas às duas da tarde já havia fogo e não se ouvia trovoada nenhuma.”

Mais à frente, na povoação de Nodeirinho, uma avó jovem chora a dor de quem perdeu um neto. “Ele só tinha quatro anos. Foi tão desejado, os pais tentaram ter filhos durante 11 anos.” A criança viajava no carro com o tio, os pais estavam em São Tomé e Príncipe, a festejar o casamento, que finalmente se havia concretizado no passado domingo. “Isto é uma tragédia. Estão a tirar agora o corpo”, chora um dos tios da criança.

Enquanto seguimos para uma das frentes ativas do incêndio, um agente da GNR encontra-se perante uma viatura, também ela destruída pelas chamas: “Morreram aqui três civis.”

Mais à frente, uma carrinha com dois homens de Castanheira de Pera abranda ao nosso sinal. “É uma catástrofe como nunca vi”, conta Domingos Marques, de 59 anos, que se encontra ao volante. Foi até à cidade para poder ligar ao filho, que está em Lisboa, em casa não tem como comunicar. “Já temos visto grandes incêndios, mas nunca com mortes. Estávamos aqui ontem, mas com tanto fumo nem as labaredas se viam, deve ter sido isso que provocou tantos acidentes e que fez com que tanta gente ficasse pelo caminho.” Segundo o local, a praia das Rocas, atração turística da zona, faz com que muitas pessoas visitem o concelho. “Muitas das pessoas que morreram na estrada deviam ser turistas a voltar da praia. Com aquele fumo todo devem ter começado a bater uns nos outros sem conseguirem sair.”

As piscinas e a praia fluvial estão desertas. Bombeiros abastecem os veículos nestes locais, outrora muito frequentados. Em Torgal, no concelho de Castanheira de Pera, famílias e idosos são deslocados por meios de socorro. “Têm mesmo de sair”, avisa um agente da GNR. Hélder Carvalho, de 83 anos, vive no concelho e veio ajudar alguns amigos que têm de sair das suas habitações. “Estes dias estão a ser horríveis”, diz enquanto chora.

Ao i fica impossível de acompanhar os operacionais. O carro não pode passar e o pedido de boleia também não é aceite. Sobe-se a pé, até os olhos e os pulmões nos mandarem parar.

“É a verdadeira miséria”, sussurra uma senhora de idade enquanto sai de casa com um saco plástico, uma garrafa de água e um cão de grande porte a acompanhá-la.

Na ambulância, sentada a respirar fundo está Alzira, de 83 anos. Conta que estava na cama quando se levantou, por volta das três da manhã, para ir à casa de banho: “Estava tudo tranquilo, voltei a deitar-me e só acordei às seis da manhã. Pensei para os meus botões: que noite tão tranquila. Até que de repente acontece isto.” Alzira, que vive sozinha, tem a sua casa numa pequena povoação que está agora coberta pelo fumo. “Daqui não se vê, quando o fogo chegar àquele canto, aquilo vai arder tudo.”

A Proteção Civil pede-nos para sair. Uma família enche um carro com sacos. “Estamos a ir para um local que seja seguro. Mandaram toda a gente ir embora, mas ainda há ali em cima pessoas dentro das casas.”

Numa carrinha de táxi está Marino Anjos. de 62 anos, que veio buscar uma senhora de 92 anos para almoçar em sua casa. O genro, que é bombeiro, saiu de casa no dia anterior ao início da tarde e só voltou agora para almoçar. “É todos os anos isto, é preciso mão pesada para o problema. No ano passado, aquela encosta ardeu toda, foi um milhão de euros de prejuízo. Viram o homem a pegar fogo, houve testemunhas, e o tipo anda aí, então como é que é? Eu não tenho a menor dúvida de que foi fogo posto.” Marino já conta com prejuízos de 30 mil euros com o incêndio destes dias.

Sentados num veículo estão três bombeiros à espera de reabastecer. Três são do Pombal e um de Pedrógão Grande. “Estamos aqui desde a noite de ontem, eles (de Pedrógão) é que estão aqui desde o início da tarde de ontem.” A exaustão e a falta de água fazem--se notar naqueles que são os heróis desta catástrofe.

Na aldeia do Torgal, a Proteção Civil e a GNR seguem em vaivém, para cima e para baixo, a toda a velocidade, na esperança de conseguir retirar toda a gente antes de as chamas chegarem às habitações. A população é idosa e relutante em abandonar o lugar onde fez toda uma vida. Carregam consigo molduras com retratos antigos, recordações de antepassados: o resto tem de ficar para trás.

Nas paredes ainda se leem apelos ao voto na AD de 1982. Ao que o i apurou, Marcelo Rebelo de Sousa terá ajudado a persuadir os mais velhos a deixarem as suas casas em risco de destruição. O Presidente da República chegou ao terreno ainda antes do amanhecer. António Costa, no mesmo dia, ficaria bloqueado no IC8 e só mais tarde conseguiria chegar ao local.

O primeiro-ministro quis mostrar “a sua solidariedade” com as populações vitimadas. A ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, atualizou o número de frentes (quatro) ativas nos três concelhos (Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos).

Teresa Morais, a vice-presidente do PSD que marcou presença no terreno, afirmou ao i: “Antes do mais, sou deputada eleita pelo distrito de Leiria. Estou na terra que me elege entre pessoas que conheço, com a qual tenho laços afetivos fortes, e até conhecia algumas das vítimas.” A intenção da sua presença foi manifestar a sua “solidariedade com as vítimas e o apoio às famílias que perderam os seus mais próximos neste incêndio, e também agradecer a coragem, o espírito de sacrifício dos bombeiros e de todos os técnicos que estão no terreno”.

“Ainda não saímos de uma situação de risco”, avisa Morais. “Basta olhar à nossa volta para entender que não terminou e pode não terminar nas próximas horas, pois depende de fatores meteorológicos que não dominamos.” A prioridade, neste momento, será “assistir os que precisam de apoio”. “Tudo o resto que possa ser discutido, haverá um tempo para o fazer”.

Sobre Marcelo Rebelo de Sousa afirmar que “se fez tudo o que era possível” perante a tragédia, Teresa Morais responde: “Para o sr. Presidente da República fazer essa afirmação é porque tem informação privilegiada que lhe permite dizer isso.”

“Acreditamos todos que o sr. Presidente terá razão naquilo que disse; eu não tenho elementos de natureza técnica que me permitam fazer uma apreciação nem a faria hoje”, garante a vice dos laranjas, que concluiu citando Pedro Passos Coelho: “Como disse ontem o presidente do Partido Social Democrata, este não é o tempo dos políticos, mas o tempo de apoiar os técnicos, os profissionais e os voluntários que estão no terreno a dar o seu melhor.”

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