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Adelaide Teixeira. Os movimentos de cidadãos assustam os partidos

Adelaide Teixeira. Os movimentos de cidadãos assustam os partidos

João Porfírio Ana Sá Lopes 19/06/2017 15:56

O pior problema é a desertificação. Captar empresas e empregos é a prioridade da presidente que se recandidata

A presidente da Câmara de Portalegre é licenciada em Geologia e depois especializou-se em Ciências da Educação. Foi convidada pelo histórico presidente da câmara Mata Cáceres para ser sua n.º 2. Quando Mata Cáceres abandonou a câmara em 2011 por doença, Adelaide Teixeira passou a presidente da câmara. Na altura aconteceu o improvável: Adelaide presidente da câmara confrontava-se com o marido presidente da Assembleia Municipal. Adelaide nunca tinha militado em nenhum partido mas o marido era presidente da concelhia do PSD de Portalegre. Quando Adelaide Teixeira concorre há quatro anos pelo movimento de cidadãos Clip, o marido abandona as funções políticas. Tem três filhos adultos. Um deles, médico, quer regressar a Portalegre para combater a desertificação – o principal problema de um concelho que, sendo enorme, tem apenas 25 mil habitantes.

Faça-me o seu auto-retrato. Quem é Adelaide Teixeira, presidente da Câmara de Portalegre eleita por uma lista de cidadãos? A primeira vez que ocupou o cargo foi pelo PSD...

Estou aqui desde 2009, com o engenheiro Mata Cáceres, na altura entrei como vice-presidente. Mata Cáceres depois sai em agosto de 2011 e eu assumo a presidência da câmara. A primeira vez que me candidatei foi em 2013. 

Como é que nasce o Clip, o movimento de cidadãos que a elegeu?

A seguir ao eng. Mata Cáceres ter saído da câmara, eu continuei como presidente eleita pelo PSD. Seria a candidata provável do PSD. Mas a concelhia de Portalegre achou que não – apesar de me terem feito o convite a nível nacional. Eu disse “tudo bem, não há problema nenhum”. Afastei-me. Mas depois houve um conjunto de pessoas que achou que eu devia continuar e vieram junto de mim pressionar-me para continuar. E, conhecendo a lógica dos partidos, acharam que se devia criar um movimento independente. Como eu também nunca fui filiada em nenhum partido, e quando aceitei ir na lista do eng. Mata Cáceres foi mais pela pessoa do que propriamente pelo partido, achei que sim. Há mais política para além dos partidos. 

Acha que consegue voltar a ganhar as eleições. Vai ser difícil, vai ser fácil?

Nada na vida é fácil, mas penso que tenho boas condições para ganhar. Alcancei os objetivos principais a que me propus. 

Chegou a ser criticada pela oposição por estar principalmente empenhada em cortar a dívida da câmara de Portalegre e fazer pouca obra...

Alcancei os objetivos principais a que me propus. Temos que olhar para este território e perceber qual é o grande problema – o nosso grande problema é demográfico. E temos outro problema associado: uma pirâmide completamente invertida em termos etários. 

Muita população idosa...

Exatamente. Só há aqui uma forma de contrariar isto. Captar investimento para Portalegre. Não têm que ser as câmaras a criar emprego. Claro que temos consciência que na maior parte destes municípios as câmaras são os grandes empregadores. Mas não pode ser só isso e temos que fazer muito mais. As câmaras têm que ser facilitadoras de forma a encontrarem pessoas que venham investir aqui. Temos que captar investimento. 

E conseguiu fazê-lo?

Consegui. Esse foi um dos grandes objetivos. Como é que nós fixamos pessoas? Como é que nós fixamos jovens? Só conheço uma forma: arranjando aqui emprego. Temos que fazer com que as empresas apostem em Portalegre. O que é que nós fizemos então? Apesar de termos consciência da dívida da câmara, decidimos que iríamos trabalhar para médio e longo prazo. Há uma receita que pode não entrar agora mas que vai entrar muito mais tarde. Temos uma zona industrial, com tudo o que é necessário – saneamento, água, etc. – para implantar fábricas e indústrias. Temos agora é que tentar que eles venham para cá. Como? Temos que dar incentivos, algo que os atraia.

E o que fizeram?

O terreno do parque industrial custa 1 cêntimo o metro quadrado para quem conseguir criar mais de 10 postos de trabalho. Reduzir o IMI em 30% que é o máximo que a lei permite; ao nível das taxas, houve 70% de redução, que é o máximo que a lei permite. Há isenção total de derrama. Antigamente cobrávamos derrama às empresas com determinado volume de receita. Agora, há isenção total para todas. Conseguimos a instalação de uma empresa da Jerónimo Martins, no valor de 47 milhões, que está já a ser implantada. Tive que convencer Bruxelas que tinha que pôs os terrenos a 1 cêntimo o metro quadrado. Eles não compreendiam. Os fundos comunitários é que financiaram parte do parque industrial. Estive numa teleconferência a tentar convencer um senhor belga e um senhor francês de que tínhamos mesmo que cobrar só um cêntimo o metro quadrado. Ele dizia-me do outro lado: ‘a senhora tem consciência de que isto são dinheiros públicos, dinheiros comunitários’? Eu dizia-lhe: “Eu tenho, mas o senhor sabe onde fica Portalegre? O senhor tem consciência de quantas pessoas existem em Portalegre?”. A capital de distrito é Portalegre e a cidade tem 15 mil habitantes! 15 mil habitantes é aflitivo! Estamos num território que tem 118 mil habitantes! O Alto Alentejo tem 118 mil habitantes! Estamos a falar na sexta maior região de Portugal, uma extensão brutal. O concelho de Portalegre tem 25 mil habitantes. Temos concelhos com 1500, 2000 pessoas. Isto não é nada! 15 mil habitantes qualquer freguesia na área de Lisboa tem ou mais do que isto. Este é que é o grande problema. Partindo do problema que está perfeitamente identificado a nível nacional, é preciso olhar e perceber como é que se reverte isto. Como é que se traz pessoas para aqui? As pessoas só se fixam aqui se tiverem emprego. Para mim era muito importante trazer esta fábrica.

A fábrica é de quê?

É de empacotamento de laticínios. Estamos a falar de uma fábrica de nove hectares – nove hectares são nove campos de futebol. Está já a ser construída. Quem está à frente deste projeto é o prof. António Serrano, que já foi ministro da Agricultura. Foi um processo longo, como todos os projetos de grande envergadura, mas esta fábrica é quase como uma âncora para atrair outras. E a verdade é que a partir daqui as coisas começaram a movimentar-se de outra forma. Neste momento temos mais uma fábrica de queijos. Entretanto, a EDP, só pelo facto de vir a fábrica da Jerónimo Martins para Portalegre, foi obrigada a aumentar a potência e criou mais 12 postos de trabalho. 
Esta aposta foi ganha. Nós precisávamos de muito mais fábricas, de mais empregos. Vinha há pouco tempo numa revista que Portalegre neste momento é a quinta melhor cidade para se investir. Nos últimos dois anos, foram criados 800 novos postos de trabalho, o que é muito bom. Em termos percentuais, é uma percentagem bastante elevada. 

Sente que tem apoio do governo central para este combate à desertificação de um concelho do interior?

Aquilo que eu sinto é que o governo tem exatamente a mesma preocupação que nós. Têm consciência daquilo que está a acontecer ao território, principalmente ao interior do país. Penso que estão a tentar mudar alguma coisa. Tenho falado com muitos secretários de Estado e tento fazer-lhes ver que isto já não é uma questão só das autarquias locais. Há uma altura em que já não está nas nossas mãos. Tem que haver diretrizes do poder central, não só de incentivos às empresas, mas também coragem política para deslocalizar alguns serviços públicos para o interior. 

Estamos a falar de secretarias de Estado?

Por exemplo. Ou um departamento. Nós temos imensas faculdades. Não é à toa que em outros países as universidades famosas não se encontram nas capitais. Porque não descentralizar uma faculdade? Tem que haver coragem política. 2000 pessoas em Lisboa não fazem muita diferença, mas 2000 pessoas aqui é mais do que 10% da população. Temos que ter consciência disso. Agora, há que ter coragem política para se fazer isto e não é tão difícil assim de fazer. Evidentemente, tem prós e tem contras. Mas nós deste lado também pagamos impostos. Há necessidade de se fazer alguma coisa nesse sentido em termos de serviços públicos. Por que não uma secretaria de Estado? Se calhar fazia todo o sentido.
Temos um recurso natural fabuloso que enquadra todo este concelho, que é a nossa serra de São Mamede. Tem um potencial incrível do ponto de vista turístico, do desporto, do ponto de vista cultural, da educação e que tem que ser explorado. E está a começar a ser explorado e já estamos a ter algum proveito nesse sentido. Temos neste momento muitos eventos, grandes caminhadas, BTT, e que trazem imensa gente a Portalegre e isso também desenvolve a economia local. 

O turismo está a aumentar?

Está a aumentar. Precisamos de apostar numa grande promoção e numa grande divulgação. Isso custa dinheiro. Há um percurso muito grande ainda a fazer. Tenho consciência que esse caminho tem que ser feito e tem que ser feito urgentemente. É preciso uma promoção e uma divulgação muito bem feita de maneira a captar turistas, outro tipo de eventos, diversificar os eventos de maneira a quebrar a sazonalidade. Isso já estamos a conseguir fazer. Segundo a Sociedade Portuguesa de Autores, temos já a sexta agenda cultural mais forte do país a nível de eventos. Conseguimos ter tudo o que as grandes cidades neste momento têm e até direi que há muitas cidades que invejavam ter uma oferta cultural como a nossa, que é muito diversificada e para todos os públicos. Obviamente, que também temos que desenvolver os ativos específicos...

O que são os ativos específicos?

É aquilo que nos diferencia dos outros. Também existe serra no Gerês, mas há ativos que são específicos desta região. Estou a referir-me, por exemplo, às tapeçarias de Portalegre. Temos pessoas que se deslocam de Lisboa, do Porto ou até do estrangeiro especificamente para ver as tapeçarias de Portalegre. Outro ativo específico é a nossa cortiça, em que este território é extremamente rico. É outra área que tem que ser explorada. Por que é que ainda não fiz? Porque me faltam alguns meios financeiros...

Andou a pagar a dívida...

Eu não sou obcecada com a questão da dívida. Mas tenho consciência de que há vários patamares de dívida. Nós estávamos com excesso de endividamento. Para um orçamento que ronda os 18 milhões, esta câmara tinha uma dívida de 53 milhões. Estamos a falar em algo que ultrapassa três vezes mais aquilo que é o orçamento da câmara, acima daquilo que é razoável. Se nós tivermos uma dívida que está minimamente controlada não há problema nenhum, o problema é o excesso de endividamento. E aí a própria lei penaliza-nos. O que foi feito foi descer a dívida para os limites da razoabilidade. Neste momento, estamos nos 28 milhões e 600 mil. Estamos quase, quase a sair do excesso do limite de endividamento. Quando sairmos desse excesso, teremos que continuar a trabalhar de forma a ir reduzindo a dívida, mas sem já ter aquela preocupação do “estamos aqui aflitos”. É preciso continuar a gerir a câmara de forma parcimoniosa senão rapidamente se derrapa novamente. Estamos a tentar proceder ao saneamento financeiro reestruturando 8 milhões. Não preciso de reestruturar tudo. Só 8 milhões. A reestruturação destes 8 milhões dá-me folga suficiente para poder depois investir e ao mesmo tempo potenciar aquilo que se pretende fazer. 

O que acha das propostas do governo sobre descentralização?

Esperemos que seja mesmo descentralização e que não aconteça o que já tem acontecido. É só no papel e na prática nada acontece. A descentralização tem que vir com um pacote. Não pode ser só descentralizar para as câmaras...

E as câmaras que paguem?

E as câmaras que paguem evidentemente. 

Chegou a ser presidente da câmara e o seu marido presidente da Assembleia Municipal...

O meu marido sempre esteve ligado à política, ao PSD, desde muito novo.

E a dra. não.

Mas eu acho que sou mais política do que ele! Por isto: os professores são os maiores políticos que existem! Nós condicionamos a mente das pessoas. Eu sou da área do pensamento crítico, é a minha área de especialidade em ciências da educação. E se nós tivermos consciência disso, somos os maiores políticos que existem. Mas, de facto, durante muito anos, para a política ativa bastava um em casa. Sempre fui muito crítica, para o mal e para o bem. Não devo favores a ninguém e talvez por isso esteja aqui hoje. Porque sou muito determinada, não devo nada a ninguém, tenho determinados objetivos. Evidentemente ouço as pessoas, sem dúvida alguma. Mas não tenho objetivos que não sejam defender esta região. Se me dissessem “vais para presidente da câmara para depois mais tarde ires para aqui ou para acolá” eu respondo: “Não, muito obrigada”.

Mas exclui completamente? Aqui há dias ouvi uma deputada dizer que na política e no amor nunca se diz nunca.

É verdade que nós não podemos dizer nunca. Mas dificilmente. Repare: com a idade que eu tenho será difícil. Já tive imensas propostas de vários partidos ao longo da minha vida, inclusivamente de me filiar, de fazer parte de listas. Sempre disse que não. Eu gosto daquilo que faço.

Gosta de ser presidente da câmara?

Gosto de ser presidente da câmara e gosto de ser professora. E tenho a noção de que vou voltar [à escola] e vou voltar com muito prazer. Mesmo que ganhe estas eleições e as próximas ainda, tenho a noção de que vou voltar. 

Conte lá como Mata Cáceres a convidou para n.º 2 da câmara.

Estávamos numa reunião do conselho geral da escola, de que eu era presidente. Estávamos a discutir currículos. O engenheiro Mata Cáceres era o presidente da câmara e iria recandidatar-se. Não me conhecia nem me associava ao meu marido. Não sabia que eu era casada com ele. E deve-me ter achado piada e perguntou quem é que eu era. Lá lhe disseram quem eu era e pede-me para eu vir à câmara. E disse-me. “Eu precisava de uma pessoa assim, uma pessoa que fosse crítica, que dissesse o que é que está mal e o que é que está bem. Muitas vezes, pelo facto de eu ser presidente de câmara, as pessoas acabam por dizer aquilo que julgam que eu quero ouvir e não o que seria bom e desejável”. Eu respondi. “Se é para isso, eu faço”. E Mata Cáceres disse: “O meu mal é que todas as pessoas vão atrás de mim e eu tenho consciência de que precisava de alguém que me fizesse o contraponto”. Fui convidada logo para ser número dois da lista. e ele não me conhecia de lado nenhum! O PSD ganha as eleições e o meu marido era o presidente da Assembleia Municipal. Durante algum tempo, o presidente era o eng. Mata Cáceres e eu uma mera vereadora. Mas quando Mata Cáceres sai em 2011 fico como presidente da câmara e o meu marido como presidente da Assembleia Municipal. Isto foi uma situação que, no mínimo, é sui generis. A verdade é que conseguimos ser imparciais, de tal maneira que não me lembro de ninguém me dizer algo por esse facto. De início colocámos essa questão: parecia-nos que do ponto de vista ético que tal não era correto. De tal maneira que o meu marido, que era presidente da concelhia do PSD na altura, quando eu me candidatei em 2012, imediatamente pôs o lugar à disposição e já nem sequer se candidatou a nenhum cargo. Continua filiado no PSD.

Mas vota em si?

Nunca lhe perguntei! (risos) Mas espero que sim! 

Quais são as diferenças entre ser eleita por um movimento de cidadãos relativamente a ser eleita por um partido?

É engraçado porque não há aquela disciplina de voto tradicional dos partidos. Se as pessoas acham que não estão confortáveis com determinada decisão votam ao contrário ou abstêm-se. Isso já aconteceu várias vezes. Ninguém é violentado por fazer parte de um movimento de cidadãos. Isso dá-nos uma liberdade que nos partidos não existe. Eu tenho o contraponto, porque apesar de nunca ter sido militante do PSD, fui eleita nas listas do PSD e percebia que existia essa disciplina de voto que às vezes violenta as pessoas e que as leva a terem atitudes do tipo “nem apareço”, “faço-me substituir” e coisas do género. Mas porque é que a pessoa não há-de expressar a sua opinião? É um direito que tem! Quem está contra porque é que há de votar a favor? Isso é de uma violência atroz. É engraçado que os partidos não compreendem isto – ou fingem não compreender. Mas, ao mesmo tempo, eles percebem que isso é uma arma muito poderosa que nós temos, ao contrário do que se possa imaginar! É nós sentirmo-nos muito bem com a nossa consciência e não devermos nada a ninguém. Se não devemos nada a ninguém, também não nos podem cobrar. E isso é muito bom! Dá-nos uma liberdade completamente diferente. Claro que os partidos são importantes. Mas em democracia também há lugar a outros.

Sente que os partidos estão a ficar um bocado velhos?

Sinto. Há mais política para além dos partidos. Não temos que estar todos amarrados a essas lógicas. Isso assusta os partidos um bocado. Se as pessoas continuarem a ser genuínas naquilo que as move, isso vai continuar a assustá-los.
Deixam ter todo o poder. Por alguma razão, os movimentos de cidadãos para irem a eleições têm que pedir assinaturas. A vida não nos é facilitada. Mas desenganem-se os partidos. Ao fazer a lei assim, estão a dar-nos ferramentas fabulosas! Quando nos obrigam a pedir assinaturas, fazem com que nós, obrigatoriamente, estejamos em contacto com as pessoas. E a melhor forma de fazer política é a proximidade! Por um lado, os partidos querem dificultar-nos a vida, mas não perceberam que nos estão a dar uma ferramenta poderosíssima. Ao recolhermos assinaturas, temos que falar com cada uma das pessoas individualmente. Se não fosse uma obrigatoriedade, se calhar até nos desmazelávamos. Uma vez um jornalista perguntou: “A senhora faz sondagens?”. Eu respondi: “Não, não preciso. As sondagens já as fiz quando recolhi 4 mil e tal assinaturas”. O facto de uma pessoa dar uma assinatura não leva necessariamente a que vote nessa candidatura... mas... quase! Diria que 80 e tal por cento das pessoas que assinam a candidatura estão a pensar votar. 

Portanto, está a dizer que a lei vos facilita a campanha?

Sim, facilita-nos a campanha. A melhor forma de fazermos campanha é a proximidade. O que parecia ser uma desvantagem tornou-se numa grande vantagem que nos é dada pela própria lei.

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