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Sarajevo. A toca do urso afinal era uma fábrica de cerveja

Sarajevo. A toca do urso afinal era uma fábrica de cerveja

Diana Tinoco Ana B. Carvalho 09/10/2017 14:56

Autocarros que parecem salas de convívio, o aroma que anuncia o frio de Outono. As mãos geladas e o coração quente. Estamos na capital da Bósnia e Herzegovina e tudo o que se aproxima é inesperado

São cerca de três horas de autocarro de Mostar até Sarajevo, com muitas paragens e pessoas à mistura. Os lugares estão todos ocupados: senhores de idade, crianças, viajantes. Enquanto tento descansar, ouço uma gargalhada ao fundo do autocarro. É o resultado do encontro fortuito entre um português, um brasileiro e um casal de australianos.

Sentada num dos bancos da frente, vejo uma mãe chegar com uma criança e apercebo-me que tenho de ceder-lhe o lugar. Ao deslocar-me para a parte de trás do autocarro, passo automaticamente a ser apresentada ao novo grupo de camaradas. Ouve-se falar português pela primeira vez em várias semanas.

Numa das muitas paragens no meio do nada, entra uma senhora já de idade avançada, de lenço colorido na cabeça, estilo de camponesa, que faz lembrar as dançarinas de folclore do norte de Portugal. Não tem dentes nem vergonha da falta deles e, apesar de nada perceber de inglês, segue a conversa com um sorriso de orelha a orelha. Acabo por lhe piscar o olho e ela devolve-me o sinal, caso eu ainda não tenha reparado o quão de bem está com a vida.

As paisagens são de nos tirar o fôlego. Grande parte da estrada segue à beira rio, entre montanhas. Lembra-me a linha de comboios do Douro, que tantos anos percorri e hoje vai amontoada de turistas deslumbrados com a paisagem. Aqui, somos nós que estamos em êxtase, enquanto os habitantes locais parecem nem dar por ela.

Tento dormir um bocado, vou finalmente chegar à famosa Sarajevo, da qual Milan Rados, o meu falecido professor de História do Mundo Contemporâneo da Faculdade de Letras do Porto, tanto nos falava. A mítica Sarajevo dos Jogos Olímpicos de 1984, a Sarajevo onde rebentou o primeiro cartucho da Primeira Grande Guerra, a Sarajevo multicultural, da paz e da lembrança dos dias que não o foram. Sarajevo é uma grande cidade, rodeada de verde, uma capital bem protegida pelas montanhas que se veem no horizonte.

Ao chegarmos à estação passamos às despedidas. O casal de australianos dá-me um bilhetinho com os respetivos contactos. “Talvez um dia nos encontremos por aí”, diz-me Michael, enquanto o fintava com dois beijinhos. A nossa mania de dar dois beijinhos deixa muita gente baralhada e nunca deixa de ter piada. Aírton, o brasileiro, também vai para o centro da cidade.

O “tram” é pequeno, velho e toda gente viaja apertada. Não percebemos como é suposto conseguirmos bilhete se ninguém consegue entrar pelas primeiras carruagens.

O anfitrião da “Guest House” onde deveríamos ficar hospedadas enviou um e-mail a dizer que afinal que o local está completo, mas que nos arranja outra casa onde podemos ficar. Depois de subirmos e subirmos mais um bocado, finalmente descobrimos o lugar, que fica na parte antiga da cidade.

Trata-se, no final das contas, de uma cave improvisada numa casa, até bem arranjada, mas que não tem as três camas prometidas. Negoceia-se um colchão a mais e um desconto. Cada noite fica-nos por cinco euros e meio.

Se Mostar era barata, Sarajevo não tem comparação possível. À procura de onde matar a fome, encontrámos um pequeno restaurante que não é mais do que um corredor apertado dedicado à juventude que ali para para fumar “shisha” (cachimbo de água). Pagámos um euro e meio por uma pizza média e um euro e meio por um hambúrguer.

Na rua principal de Sarajevo, onde centenas de lojas se alinham e pessoas de todas as etnias e religiões se cruzam todos os dias, damos de frente com Øystein, o norueguês que encontrara na viagem de autocarro de Dubrovnik a Mostar.

Depois de uma enorme festa, nem dois minutos haviam passado e tropeçámos no casal australiano de quem nos tínhamos despedido apenas algumas horas antes. Ali estávamos nós, na rua gémea da portuense Santa Catarina, mas em Sarajevo, a reunir todas as boas companhias de viagem até então. O brasileiro Aírton encontrou-nos logo em seguida e Øystein disponibilizou-se para nos mostrar um pouco da cidade que tão bem conhecia. Dezenas de turistas param para tirar fotografias na esquina onde o arquiduque Francisco Fernando foi assassinado – episódio que daria origem à Primeira Guerra. Depois dessa atração, Øystein convida-nos a visitar um“Bear Hole”. Já nos tinham falado sobre a existência de ursos nas montanhas dos Balcãs, mas daí a visitarmos um género de “toca de urso” assim no meio da cidade soa muito estranho. Neste tipo de viagens não é difícil perdermo-nos em más traduções e Øystein parece muito surpreendido por eu insistir que nunca visitei nada semelhante. “Nem mesmo em Berlim?”. Nem mesmo em Berlim. Claro que este mal-entendido não durou muito tempo. Mal nos aproximamos da enorme fábrica de cerveja, apercebo-me que é tudo uma questão de pronúncia: Øystein queria oferecer uma bela caneca de cerveja, num “Beer Hole”.

Assim foi. Ficámos um pedaço na enorme Sarajevske Pivara, uma cervejaria cuja comida e bebida condizem com a elegância e o conforto do espaço. Passado um pouco lá nos despedimos do nosso amigo escandinavo, que ia para o aeroporto. Aírton, que é fã incondicional de futebol, convida-nos a assistir a um clássico às oito horas. Parece-nos uma experiência que não devemos recusar.

O bilhete que nos permite entrar no antigo e pouco preenchido estádio custou quatro euros, os mais baratos já estavam esgotados. A equipa da casa, Fudbalski Klub Zeljeznicar, viria a perder um a zero com a equipa visitante, o Zrinjski de Mostar, líder da tabela.

Arnela, que conhecemos em Mostar, contou-nos que antigamente o futebol era uma desculpa para confrontos pós guerra, entre adeptos de etnias diferentes. Hoje, apesar da febre do espetáculo obrigar a carga policial e à equipa visitante a abandonar o estádio dez minutos antes do final da partida, as coisas já não são assim.

Ao intervalo, um adepto da equipa da casa olha o relvado. Pergunto-lhe o quão importante é este jogo e se o facto de a equipa adversária representar a extrema-direita croata influencia em alguma coisa a partida. “Isso era antigamente. Não quero saber de onde são ou quem joga por eles. Eu odeio todos os clubes que não sejam o meu. A nossa equipa está cheia de sérvios, a equipa deles tem gente nossa, só vimos cá pelo jogo. Nada mais importa”.

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