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Sarajevo. “Se tiveres medo é mais fácil virarem-te contra mim”

Sarajevo. “Se tiveres medo é mais fácil virarem-te contra mim”

Diana Tinoco Ana B. Carvalho 10/10/2017 16:19

O rio Miljacka, que atravessa a capital da Bósnia e Herzegovina, corre independentemente do que testemunha. As águas turvas, baixas, onde centenas de corvos se banham, viu a história da humanidade dar várias reviravoltas nas suas margens

Acordámos em Sarajevo. A nossa cave improvisada de alojamento local fica na parte antiga da cidade. Acordámos com o chamamento muçulmano para a oração da manhã. Há mesquitas por toda a cidade. Viremos a saber que são pelo menos cem.

Ontem chegámos do estádio de futebol de táxi. A viagem, que durou pelo menos dez minutos, ficou-nos por seis marcos bósnios. Aqui, os taxistas usam o taxímetro e são honestos, não nos querem aldrabar só porque não temos ar de quem vive cá. Cada marco vale metade de um euro. A viagem ficou-nos por três euros.

Acordámos em Sarajevo e a grande questão que me aflige por esta altura é: como se começa um texto sobre este lugar? Como se pode passar, através de palavras, tudo o que a capital da Bósnia e Herzegovina nos faz sentir assim que se pisam estas calçadas? Será a capital que mais nos marcará nesta viagem, onde o luto contrasta com a vida do bairro otomano, as lápides dos cemitérios infinitos refletem o sol que ilumina toda a cidade, a estátua de João Paulo ii em frente à grande catedral se cruza com o Museu dos Crimes Contra a Humanidade e do Genocídio de 92/95, onde os risos das crianças fazem estremecer as memórias da cidade que sofreu no interior do mais longo cerco de guerra desde a Idade Moderna.

Na guerra mais recente, no início da década de 90, Sarajevo esteve sob cerco durante quatro anos e as pessoas, os monumentos e os museus vão lembrar-nos disso constantemente, embora seja uma ferida em que ninguém gosta de tocar.

Descemos a colina onde estamos hospedadas e vamos ao encontro do pequeno rio Miljacka, que separa Sarajevo e Sarajevo Oriental. As águas não formam uma grande corrente, pelo contrário. O rio passa lentamente, é baixo, escuro. Nele banham-se centenas de corvos que voam à volta da cidade, dando-lhe um ar ainda mais misterioso.

As margens do rio Miljacka estão ligadas por dezenas de pontes. Dirigimo-nos à mais conhecida, a Ponte Latina. Foi por ali que o arquiduque Francisco Fernando foi assassinado, em 1914, por um jovem, Gavrilo, que viria a ser capturado. Conta-se que Francisco Fernando e a esposa não morreram logo a seguir ao atentado, tendo sido ambos transferidos para uma residência onde os cuidados médicos não eram os melhores. “Se tivessem sido levados a um hospital militar com as devidas competências, se calhar, a esta hora, não estávamos aqui, nesta Sarajevo”, dizem-nos à porta da Nova Escola Edhem Mulabdi.

Hoje o clima é de paz, mas de política “infinitamente instável”, explica-nos um comerciante no bairro otomano. Sarajevo é uma salada de culturas, etnias e religiões.

Contam-se três principais religiões, três diferentes línguas que se encontram na mesma base linguística e sabem-se dois alfabetos. As etnias dividem-se entre os sérvios ortodoxos, associados à igreja tradicional russa e daí, em tempos de Guerra Fria, tendencialmente demonizados pelos Estados Unidos da América; os bosniaks, que se guiam pelo islão e as suas leis, atraindo muçulmanos de todo o mundo para dentro das fronteiras bósnias; e ainda os croatas católicos, que tiveram um pesado papel na guerra do país.

“Aqui não há bons nem maus, fomos todos marionetas do poder internacional e sabemos disso. Eu não defendi pátria nenhuma, eu defendi a minha família”, conta-nos um outro comerciante, que não se quer identificar porque “as paredes todas têm ouvidos”, mas que se assemelha demasiado ao ator norte-americano Bill Murray. “Sou filho e neto de fotógrafos, somos gerações e gerações de comerciantes. Esta loja existe há cinco gerações. Nunca quis saber se a minha mulher era muçulmana ou croata, nós éramos todos um. Sarajevo nunca diferenciou a etnia ou a religião de ninguém, até porque aqui ninguém é religioso”, diz-nos de forma assertiva.

Mais tarde, são vários os habitantes locais que apoiam esta tese. “Nós somos católicos, muçulmanos ou ortodoxos, mas é no papel. As pessoas não frequentam as mesquitas ou as igrejas. É tudo uma questão de poder: dizem que há três etnias e três religiões, e assim temos três presidentes que não se entendem”, explica.
Na Bósnia, a política é um jogo complicado. Existem três líderes que assumem a presidência num sistema rotativo, de oito em oito meses.

Na loja ao lado do seu comércio de artesanato está o laboratório de fotografia da família. Pergunto ao sósia de Bill Murray se tirou fotografias na guerra, onde combateu. “Milhares, mas não vos vou dar ou mostrar. É só sangue, mortos, pedaços de corpos no chão. Não vão aprender nada ao olhar para elas, já pensei em queimá-las todas”, diz-nos enquanto olha para a montra, que tem a luz apagada.

Será que pode chegar a guardá-las, já que fazem parte da História? “A História está aqui, nas ruas, onde vês mulheres de hijabe no mesmo grupo de amigas de minissaia. Os meus filhos sabem tudo sobre a guerra, as versões, o que se passou. Não preciso de contar a história a mais ninguém. O melhor que podemos fazer pelo mundo é dar educação às novas gerações para que não deixem que a História se repita. Mas era bom que se ouvissem as versões todas.”

Depois de nos dar um cartão-de-visita onde está o contacto da mulher, que organiza visitas guiadas às redondezas de Sarajevo, despede-se de nós com um abraço.


Os locais de Sarajevo dizem-nos que o Ocidente os ajudou porque a geopolítica assim o exigia. Em toda parte há referências e até uma estátua de Bill Clinton.

“A Croácia e a Eslovénia interessavam aos alemães. Mas o que é que eles tinham? Vende-se vinho como se fosse da Eslovénia quando o vêm buscar à Macedónia. Eu amo as pessoas da Eslovénia, o problema é sempre do poder e dos jogos da política. Nós, cidadãos, somos todos feitos do mesmo e só queremos viver em paz”, conta um senhor de idade à porta da mesquita mais antiga de toda a Sarajevo, que é conhecida por Mesquita do Imperador.

Durante séculos, Sarajevo foi a zona fronteiriça entre o Império Austro-Húngaro e o Otomano. A influência de ambos nas ruas da capital são notáveis e as igrejas e as mesquitas são só algumas das heranças dos dois mundos.

Espreitamos para o largo que se estende à porta da Mesquita do Imperador. Os turistas não podem entrar nas mesquitas quando as pessoas estão a rezar. Mas, como a sorte nos tornou amigas de Selim Hafiz, de 55 anos, responsável pela mesquita e por chamar todos os dias os crentes para as orações, este convida-nos a entrar na mesquita às 15h54, hora da primeira oração dessa tarde, à qual assistimos.

Selim Hafiz é o muezim da mesquita mais antiga de Sarajevo. A sua responsabilidade é a de anunciar a toda a cidade, sem microfone, do alto da torre da mesquita – a almadena – que está na hora de se dedicar à oração. Durante a guerra, todos os dias subiu os mais de noventa degraus para chamar os fieis para rezar "caíam bombas, disparavam tiros, mas Deus nunca quis que me acertassem".

No islão existem cinco orações obrigatórias, mas apenas os homens têm de se dirigir à mesquita: “As mulheres têm uma vida muito ocupada, não só trabalham nas suas profissões como ainda são mães e esposas, são o centro do nosso mundo”, conta, depois da oração, um muçulmano que não o era até ter estado na linha da frente de combate. “A guerra ensina-nos muito. Os meus pais eram muçulmanos por hereditariedade, mas nunca me educaram para ser religioso. Mas, depois, veio a guerra. E a guerra muda tudo.” Na mesquita, os homens rezam mais à frente e as mulheres mais atrás. Assim que veem o meu ar desconfiado em relação à separação de géneros, que em Portugal também se dava em muitas dos templos católicos num passado demasiado recente, explicam-me: o homem vem à mesquita para rezar, para se afastar do mundo e dedicar uns momentos do seu dia à oração. “Já viu as nossas posições a rezar? Acha que a natureza de um homem lhe permitiria ter todos os pensamentos dedicados só e apenas a Deus se à nossa frente estivessem lindas mulheres?”, pergunta-me em jeito de explicação. Hoje é voluntário e ajuda Selim na mesquita. “No fundo, a base de todas as religiões é digna e semelhante, defende--se o amor ao próximo acima de tudo. O problema é o que os homens fazem delas, não é?” pergunta, enquanto Selim lamenta o seu fraco inglês. “Gostava tanto de vos explicar em palavras certas o que sinto cá dentro. O meu coração está tão feliz por vos receber aqui”, diz-nos, enquanto nos dá de lembrança um masbaha, que se assemelha a um rosário católico, com bolinhas em madeira.

Pergunto-lhes sobre a entrada da Al- -Qaeda pela Bósnia, sobre o extremismo muçulmano e como é que veem a islamofobia que resulta da propagação do terror por grupos como o ISIS. “Essa gente não nos representa. Dão um título aos ideais deles e chamam-lhes fé. Leia o Corão e diga-me em que parte é que diz que podemos matar. Não podemos, nenhum humano tem esse direito. E se Deus pode tudo, porque haveria de querer sacrificar vidas? Querem espalhar o medo, e sabes porquê? Se tiveres medo, é muito mais fácil virarem-te contra mim. Sem medo, não há poder.” A conversa estende-se por várias horas e, no fim, Selim, filho do mais famoso muezim de toda a Europa, que faleceu aos 84 anos, despede-se de nós com as mãos dadas às nossas. “Vou sempre ter-vos nas minhas orações, as nossas profissões são parecidas. Espalham a palavra da paz e do amor pelo mundo.”

 

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