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F1. Uma mão cheia de mulheres e fim da história

F1. Uma mão cheia de mulheres e fim da história

Laura Ramires 12/03/2018 14:47

Maria Teresa de Filippis foi a primeira piloto de um carro da F1. Em 1958 foi impedida de correr no GP de França – era demasiado bonita para usar um capacete sem ser o do cabeleireiro.

Na última semana o nome de Tatiana Calderón invadiu a imprensa desportiva. Em causa está o facto de a colombiana de 24 anos ter sido anunciada como a nova piloto de testes da Alfa Romeo Sauber, equipa que integra a principal prova de automobilismo do planeta, globalmente conhecida como Fórmula 1. Até aqui nada de anormal sem ser a particularidade de ser uma notícia incomum num universo desde sempre dominado pelo sexo masculino. Mas o verdadeiro problema chegou depois e pela voz de... outra mulher. As declarações de Carmen Jordá, uma das representantes da Comissão de Mulheres no Desporto a Motor da FIA, ganharam eco após a confirmação dada pela Sauber e geraram uma onda de indignação que obrigou a ex-piloto espanhola a desculpar-se publicamente. Defendia Jordá que todas as mulheres que têm o objetivo de vingar no mundo do automobilismo devem enveredar pela Fórmula E, categoria composta por carros 100% elétricos. Isto porque, segundo clarificou a própria, há «uma barreira física para as mulheres na F1», que impede que possam competir de forma justa e igual com os homens. A controvérsia não tardou e a mulher que desempenhou funções enquanto piloto de desenvolvimento na Lotus e Renault entre 2015 e 2016 optou por partilhar um comunicado a justificar a sua posição. Num longo texto, publicado no Dia Internacional da Mulher, a espanhola garantiu que a sua visão, que «criou um debate considerável», se baseia na experiência pessoal e que nunca quis desencorajar aquelas que perseguem esse sonho. «Nunca tive a intenção de desencorajar outras mulheres de competirem no pináculo do nosso desporto ou de dizer que elas fisicamente não conseguem», garantiu na mesma nota.

Mulheres na F1 contam-se pelos dedos de uma mão

Olhando para o histórico é notória a ausência de mulheres na F1. Contas feitas, apenas cinco (!!!) mulheres foram oficialmente apresentadas como pilotos efetivas de alguma das equipas que integram(vam) a categoria. São elas: as italianas Maria Teresa de Filippis (1958 – Maserati e 1959 – Behra/Porsche), Lella Lombardi (1974-76 pela Brabham, March e Williams, respetivamente) e Giovanna Amati (1992 – Brabham), a britânica Divina Galica (1976 –Surtees e 1978 – Hesketh) e a sul-africana Desiré Wilson (1980 – Williams). No fim, nenhuma conseguiu pole positions, pódios ou vitórias, mas, contudo, Lombardi conseguiu o feito de pontuar. No entanto, uma das histórias mais célebres pertence à piloto pioneira. No Grande Prémio de França de 1958, Maria Teresa de Filippis foi impedida de correr por... ser mulher. Na altura, o diretor de provas, Toto Roche, exibiu a fotografia da piloto e defendeu que uma mulher tão bonita como Maria Teresa só deveria usar capacete se fosse o do cabeleireiro.

Nos últimos anos, as mulheres têm vindo a ocupar espaço na modalidade, mas essencialmente dentro das equipas de desenvolvimento e como piloto de testes. Porém, no total, o número também está muito longe de ser expressivo. Em 2002, a americana Sarah Fisher conduziu um carro da McLaren, no GP dos EUA, e três anos depois, em 2005, a britânica Katherine Legge fez um teste pela Minardi no Circuito de Vallelunga, em Itália. Foram precisos sete anos para surgirem notícias deste tipo, mas desta feita em dose dupla. Em 2012 a espanhola María de Villota foi contratada pela Marussia F1 e a britânica Susie Wolff assinou com a Williams. Nos últimos tempos há o caso já referido da representante da FIA e agora o de Calderón, que após ter estado em 2017 como piloto de desenvolvimento se junta à equipa principal para desenvolver trabalho como piloto de teste. 

De resto, a colombina que também corre na categoria GP3, – e na qual vai fazer prova esta temporada após ter terminado na 18.º posição da geral no último ano –, assegurou desde logo que o físico não é uma barreira e mostrou a ambição que tem em correr ao lado de homens. «Obviamente, eu ainda não guiei um carro de F1 propriamente, mas não tive problemas com o carro da GP3, que é muito complexo. E também não tive nenhum problema com nenhuma outra categoria. Acho que a questão está na preparação para chegar aqui. É preciso treinar muito duro porque existe uma diferença de massa muscular em relação aos homens, mas isso não quer dizer que não possamos compensar isso com treino. Não é uma barreira», adiantou. Se concretizar o seu sonho, a jovem piloto pode tornar-se na primeira mulher no grid volvidos 42 anos. É que apesar da inscrição nas equipas, Lella Lombardi foi a última a classificar-se para um Mundial, tendo marcado presença no GP da Áustria de 1976. 

Hamilton defende mulheres na F1

Em 2017, na conferência de imprensa do GP da Austrália, o primeiro da temporada, o britânico Lewis Hamilton abordou precisamente a ausência de mulheres na F1. O piloto que se viria a sagrar tetracampeão mundial de F1 no fim desse ano adiantou que sente falta de presença feminina. «Gostaria que dessem mais espaço às mulheres no paddock. São homens demais», afirmou, em março do ano passado.

De recordar também que fora das pistas, a organização da F1 anunciou em janeiro o fim das grid girls – modelos promocionais que se encontravam nos paddocks das corridas. A medida que originou uma enorme polémica tem efeitos imediatos e, por essa razão, a primeiro prova que se irá realizar em Melbourne, com início agendado para 25 março, já não contará com mulheres na grelha de partida. 

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