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Teatro. Um manual para o trabalho e a felicidade

Teatro. Um manual para o trabalho e a felicidade

Mariana Madrinha 12/04/2018 18:38

Estreou-se no mês passado na Grécia, esta sexta-feira chega a Portugal e ainda segue para Itália 

Juntar água, abanar o pacote, levar três minutos ao micro-ondas em potência máxima. Passar pelos cabelos, deixar atuar, enxaguar. As instruções de utilização acompanham grande parte dos produtos nas prateleiras, mas não é desses que fala este texto. É certo que este manual de instruções que hoje aqui trazemos dá muito mais trabalho, não pode ser concretizado sem um grupo e nada tem a ver com a noção de consumismo – mas o resultado é bem mais promissor: felicidade. Tudo isto em forma de teatro.

Falamos de uma peça intitulada precisamente “A Manual on Work and Happiness” (“Um Manual do Trabalho e da Felicidade”), que ao longo deste ano será representada em três países: Grécia, Portugal e Itália. Depois das encenações consumadas nestes países, o texto, os cenários e as instruções estarão disponíveis para download gratuito para que qualquer grupo de pessoas com vontade de trabalhar possa encenar a peça em qualquer parte do planeta.

A estreia mundial aconteceu no mês passado, na Grécia, e esta sexta-feira a peça chega a Portugal. Será apresentada no Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, no Montijo; em maio é a vez do Cine--Teatro de Alcobaça e depois chega a Lisboa (Marvila) e ao Porto. Outra particularidade: em palco, (quase) só amadores, “atores” vindos de cada comunidade local, sem qualquer ligação às artes cénicas. Mas há todo um antes e depois da estreia desta peça que merece ser contado. Comecemos pelo princípio, uma vez que este é um projeto em cinco tempos e a peça é apenas uma das facetas.

Residências Tudo começou quando a Artemrede, em colaboração com os parceiros Pergine Spetaccolo Aperto (Itália), L’ Arboreto Teatro di Mora (Itália) e Teatro Municipal e Regional de Patras (Grécia), venceu a candidatura ao programa Creative Europe / Projetos de Cooperação Cultural. Para tirar os planos do papel, convidaram a companhia Mala Voadora, que assumiu a direção artística deste projeto que, a desenrolar-se em três país do sul da Europa fortemente afetados pelo espetro da crise, tem como tema principal a relação entre o trabalho e a felicidade, além de refletir sobre a vida laboral no futuro.

No ano passado, o trabalho foi, efetivamente, o tema central de um colóquio internacional organizado em Itália. “Eu e o José Capela assistimos a esse colóquio, e a Mala Voadora já queria há muito tempo trabalhar esse tema”, conta Jorge Andrade, cofundador da companhia, ao i, explicando que rapidamente aceitaram o desafio da Artemrede. Em agosto do ano passado, Jorge e José estiveram numa residência artística em L’Arboreto – Teatro Dimora di Mondaino (Itália), juntamente com o catalão Pablo Gisbert, que escreveu o texto, a desenvolver o que viria a ser a peça “A Manual on Work and Happiness”, um espetáculo feito, no fundo, com os contributos das reflexões das pessoas sobre este tema durante a residência.

Posto isto, foi aplicar o que idealizaram às comunidades dos três países que aderiram ao projeto. No mês passado, Jorge esteve na Grécia para acompanhar os ensaios e a estreia da peça – falada, neste caso, em grego – e, nas últimas duas semanas e meia, tem estado no Montijo para a preparação d’“Um Manual do Trabalho e da Felicidade”, para ver esta sexta e sábado no Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida.

O método Seja qual for a cidade, o método é o mesmo. O teatro local abre candidaturas para quem quiser subir ao palco – o único critério é não ter experiência –, é feita uma seleção dos “atores” (são 18, no total) e é-lhes dada a possibilidade de escolher o texto com que mais se identificam e que querem interpretar. Em palco só há um ator profissional em cada país – no caso português, a tarefa coube a Vítor d’Andrade. Depois disso são três semanas intensas de ensaios.

“As pessoas saem dos seus trabalhos e vêm ensaiar”, explica ao i Marta Martins, diretora executiva do Artemrede. “É um compromisso intenso, são três semanas só com um dia semanal de folga. Apesar da exigência, a reação das pessoas tem sido surpreendente.”

E quem são os “atores” que pisarão o palco já amanhã? “Um grupo com idades entre os 16 e os 70 anos, desde estudantes a reformados”, enumera Jorge, enquanto nos conta que as vagas para Alcobaça também estão quase preenchidas. “Esta experiência é quase uma troca. Vamos conhecendo estas pessoas que connosco fazem o espetáculo e elas vão sabendo mais sobre a nossa profissão. É um espetáculo trabalhoso, exigente, mas no final é gratificante”, garante Jorge, que é também responsável pela conceção e encenação. “Quisemos chamar as pessoas que normalmente estão distantes deste processo, o que é também um dos objetivos da Artemrede”, secunda Marta, lembrando que outra das bandeiras deste projeto de cooperação cultural é chegar a novos públicos e provocar reflexão nas comunidades.

Uma coligação do sul Depois de o espetáculo se estrear em todos os teatros que aderiram, os direitos da peça, os cenários desenhados por José Capela, as instruções de Jorge Andrade e o texto de Pablo Gisbert ficarão disponíveis, como já referimos, no site (http://amanualonworkandhappiness.eu/the-manual/). Jorge garante que estão a fazer tudo para criar um manual “o mais fazível possível, independentemente dos orçamentos e dos elencos”. E Marta gostava de ver a peça ser representada “por outros grupos e pessoas pela Europa”. “Afinal, escolhemos este tema com que qualquer pessoa se identifica e a própria escolha foi amplamente participada. Esta reflexão sobre o trabalho e a felicidade é transversal, e nestes países, com a crise, teve um impacto muito significativo, aí por causa do ‘não trabalho’.”

E é com os olhos postos nesse passado recente que este projeto quer ir buscar argumentos para o futuro. Assim, nasceu a Southern Coalition, uma coligação de países do sul “que têm uma base comum”, explica Marta. A ideia é criar mobilidade “de conectar as periferias com o centro”. “Todos estes países foram muito afetados nos tempos de crise e o meio cultural mais do que nenhum outro. Por isso, esta rede quer também investir na qualificação e capacitação dos profissionais da área”, diz a dirigente.

Para já, abram-se as cortinas – amanhã, às 21h30, no Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo.

 

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