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Morreu Tom Wolfe, o celebrado autor de "A Fogueira das Vaidades"

Morreu Tom Wolfe, o celebrado autor de "A Fogueira das Vaidades"

Jornal i 15/05/2018 16:08

O lendário jornalista e romancista norte-americano morreu ontem num hospital em Manhattan, aos 88 anos. Tom Wolfe foi um dos grandes interpretes do seu tempo, leitor das muitas convulsões que sacudiram os EUA a partir do fim da II Guerra e até aos nossos dias. Com a sua prosa vívida e electrizante, soube colar as diferentes partes de uma América que hoje se encontra estilhaçada e a viver uma guerra civil cultural

A notícia foi avançada pelo "The Guardian": Tom Wolfe, o ensaísta, jornalista e autor de obras de culto que cativaram gerações de leitores como "A Fogueira das Vaidades" e "The Electric Kool-Aid Acid Test", morreu na segunda-feira aos 88 anos.

De acordo com o diário britânico, Wolfe morreu num hospital em Manhattan, onde, segundo informou a sua agente, Lynn Nesbit, tinha sido internado na sequência de uma infecção.

Uma das figuras centrais do movimento que ficou conhecido como New Journalism (ou jornalismo literário), Wolf colhe até créditos como um dos responsáveis por fixar este termo, isto depois de uma colecção de ensaios que publicou em 1973 com esse título e em que comparecia ao lado de nomes como Truman Capote, Joan Didion e Hunter S. Thompson.

Trata-se de uma abordagem jornalística em que o repórter não encobre o seu rasto, e chega a assumir algum protagonismo no relato, colocando-se em cena como Tom Wolfe fazia com especial tenacidade e servindo-se de elementos típicos da escrita de ficção para capturar a atenção do leitor e enredá-lo na trama que urdia para ilustrar uma dada realidade. O uso dessas técnicas criaram um híbrido que trouxe para as páginas dos jornais um tipo de penetração da realidade que levou muitos romancistas a suporem que a ficção pudesse tornar-se um género obsoleto, uma vez que agora juntava-se o talento para a observação do grande escritor com a endiabrada imaginação da realidade para criar intrigas impensáveis, e que, ainda por cima, não tinham de convencer o leitor. Eram reais.

Numa carreira a muitos títulos inovadora, a realidade teve nele um realizador que sabia dar ênfase a ângulos invulgares, e foi pioneiro também naquilo a que chamava "reportagem pela saturação" ("saturation reporting") em que o jornalista acompanhava o sujeito ao longo de um período prolongado de tempo de forma a traçar um perfil caçando aquelas impressões que surgem quando a figura baixa as defesas e mostra quem é no seu ambiente. Como Wolfe explica, "para consegui-lo tens de passar longos períodos com a pessoas sobre a qual estás a escrever... tempo suficiente para garantires que estás lá na altura em que ocorrem o tipo de situações reveladores nas suas vidas".

Tom Wolfe nasceu em 1931, no estado da Virginia, e vivia em Nova Iorque desde que, em 1962, entrou para a redacção do "The New York herald Tribune". A vocação dele revelou-se-lhe enquanto estava ainda na universidade, que deixou para se tornar repórter no "Springfield Union", em Massachussetts. Foi aí que começou a chamar a atenção, recebendo o convite do Herald e adoptando a Big Apple como casa. Ali conheceu a mulher, Sheila, com quem teve dois filhos.

Com um excepcional faro para histórias picantes, personagens excessivas e figurões em busca do seu quinhão do sonho americano, Wolfe aliava ao estilo tantas vezes satíricos dos seus ensaios e reportagens, um peculiar estilo na forma de vestir. À semelhança de Gay Talese, outro dos nomes maiores do New Journalism, era reconhecido pelos fatos de três peças, brancos de cima a abaixo. Gostava de causar sensação, e mantinha a elegância mas sem abdicar de deixar uma impressão indelével. Era visto muitas vezes a passear na Madison Avenue, segundo o "The New York Times", com um ar entre o jovial e o viperino. Certa vez, ao ser instado a descrever o seu estilo provou o seu génio auto-irónico ao baptizá-lo como "Neo-pretensioso".

Se a humildade não estava entre as virtudes que mais prezava, não precisou de reinvindicar a sua importância uma vez que o talento da sua prosa era titilante, infeccioso, capaz de aliar a notação incisiva ao género de "pirotecnia verbal" que deliciava os leitores. Como sublinha o "The New York Times", a sua escrita traçava com algumas penados uma caricatura vivaz de quem lhe despertasse curiosidade, e além da pontaria com que metia nos seus textos a colorida balbúrdia da realidade, conseguia captar como Charles Dickens aqueles padrões de voz, os sotaques ou a pronúncia que indicam tanto sobre personagens numa cultura que vive de generosos cruzamentos e miscigenações. Assim, trouxe para a reportagem o puxão viciante literatura folhetinesca, com um uso vibrante dos coloquialismos, matizando a sua frase de uma série de sinais que até visualmente espicaçavam o leitor.

O diário norte-americano caracteriza como pop essa qualidade da linguagem que Wolfe usava, falando ainda numa pontuação explosiva. E recorre às palavras de Joseph Epstein que, num ensaio para a revista "The New Republic", disse que no que toca à criação de um estilo seguro e afinando a exuberância, ele não tem rival no Mundo Ocidental. "O estilo da sua prosa era normalmente o de uma caçadeira barroca, às vezes aproximando-se do rococó de uma metralhadora, como acontece no seu artigo sobre Las Vegas que arranca com a repetição da palavra 'hérnia' 57 vezes."

No seu obituário, o "The New York Times" cita ainda William F. Buckley Jr., que num ensaio na "National Review", excusou-se a emular a qualidade de Wolfe ao louvá-la: "É provavelmente o mais habilidoso escritor da América - e o que quero dizer é que consegue fazer mais com as palavras do que qualquer outra pessoa."

Wolfe cimentou a sua popularidade depois do sucesso do primeiro volume que reunia os seus ensaios ("The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby", publicado em 1965), aplicando a sua mestria ao buscar um twist na forma como enfrentava a cultura popular, a política e, em geral, o estilo de vida americano. Como um Fitzgerald que não deixou que o seu talento fosse trucidado pelo desmazelo de uma vida vivida ao limite, a sua personagem-tipo era as diversas encarnações de Gatsby, e Wolfe foi seguindo o trilho do dinheiro e da forma como as grandes fortunas se constróem de forma a perceber como a economia estava a moldar aquela sociedade a partir do fim da II Guerra Mundial.

O seu primeiro best seller foi "The Electric Kool-Aid Acid Test", por muitos considerado o relato definitivo sobre as origens e o crescimento do movimento hippy, e este livro projectou-o para o centro da arena pública, numa altura em que boa parte da América (como sempre, como hoje) se mostrava perplexa com um qualquer espectáculo de insurreição no seu seio, procurando-o por algo que a pudesse orientar em relação a essa nova realidade. Wolfe passou assim a ser encarado como uma autoridade em psicadélicos. Mas, ao contrário de Hunter S. Thompson, soube observar sem nunca se misturar nem perder o pé. Numa entrevista em 2008, Wolfe disse ao "The Observer" que nunca tinha sequer experimentado LSD, isto apesar de ter ouvido da boca dos dealers mais encantadores e que, então, tinham até uma aura de profetas, coisas maravilhosas sobre aquela droga: "Ainda considerei a hipótese de experimentá-la durante uns bons seis segundos", disse.

Além desta capacidade de se submergir sem se deixar arrastar, Wolfe também nunca virava costas a uma boa zaragata intelectual, e era um polemista consumado, tendo por várias vezes reagido de forma tempestuosa aos ataques dos críticos literários - entre eles, Mailer, Updike, John Irving e Noam Chomsky. Em 2001, como lembra o "The Guardian", num ensaio com o título "My Three Stooges" ("Os Meus Três Estarolas"), ajustou contas com Mailer, Updike e Irving, escrevendo: "Deve encanitá-los um tanto que toda a gente - incluindo eles próprios - esteja a falar sobre mim, e ninguém esteja a falar sobre eles."

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