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Albinismo. O estigma de ser diferente

Albinismo. O estigma de ser diferente

Maria Fernandes 13/06/2018 13:32

O Dia Mundial da Consciencialização do Albinismo é celebrado desde 2015, foi implementado pela ONU e tem o objetivo de evitar a discriminação dos albinos.

É um fenómeno que se caracteriza pela ausência de cor na pele. Apesar de não ser considerado uma doença, muitos ainda o veem como tal. Nalgumas latitudes, sobretudo em África, os albinos são menosprezados pela sociedade, vítimas de maus-tratos ou até de homicídio. Assinala-se hoje o Dia Mundial da Consciencialização do Albinismo, criado pela ONU em 2015 para combater o preconceito.

O albinismo é uma condição causada pelo défice de produção de melanina, que faz com que o portador desta anomalia tenha a pele, os olhos e os pelos muito claros. Esta característica deve-se a fatores genéticos, nomeadamente aos genes recessivos dos progenitores. Assim, tanto a mãe como o pai têm de possuir o gene do albinismo para que este seja transmitido aos filhos. 

Apesar de não ser considerado uma doença, o albinismo arrasta traz consigo vários problemas de saúde para os seus portadores. A ausência de pigmentação da pele faz com que a probabilidade de contrair cancro da pele aumente significativamente. 

Além disso, as pessoas com esta anomalia genética tendem a desenvolver problemas graves de visão. Embora as condições de iluminação permitam, muitas vezes, ver a cor dos vasos sanguíneos no fundo do olho, o que pode dar-lhes uma tonalidade avermelhada ou arroxeada, a maioria das pessoas com albinismo tem olhos azuis ou castanhos. O problema surge porque ocorre o desenvolvimento anormal da retina e dos padrões de conexões nervosas entre o olho e o cérebro. No entanto, tudo isto varia de pessoa para pessoa, uma vez que existem diferentes tipos de albinismo e a quantidade de pigmento nos olhos é variável. 

Várias albinos são praticamente cegos e, nestes casos, os problemas são irreversíveis. Ainda assim, muitos conseguem viver um dia a dia normal e aprendem a ler, a escrever e a conduzir como qualquer outra pessoa.

Perseguição Mesmo no século XXI, os ataques físicos e psicológicos contra os albinos são ainda muito frequentes. De acordo com a organização norte-americana de apoio ao albinismo e hipopigmentação, a maioria das agressões ocorre em países africanos, onde se acredita que as pessoas com albinismo são seres mágicos e possuem poderes curativos. Por isso, acabam por ser mutiladas ou mortas, para que partes do seu corpo sejam utilizadas em rituais de feitiçaria. 
Outrora, a Tanzânia destacava-se pela negativa, mas a criminalização destes atos no país acabou por dar os resultados desejados. Ainda assim, as atrocidades não cessaram:nalguns casos, apenas se transferiram para o norte da vizinha Moçambique. 

Várias mulheres albinas são violadas todos os dias por se acreditar que curam o vírus do VIH e muitas crianças são raptadas e esquartejadas para os seus órgãos sejam vendidos no mercado negro, onde atingem valores elevadíssimos. 
Ainda que várias organizações se dediquem ao combate da discriminação do albinismo e da sua perseguição, é raro o país onde estes ‘rituais’ são criminalizados. Segundo dados da Aministia Internacional (AI), as vítimas temem sofrer ataques de retaliação e, portanto, muitos crimes não são documentados nem relatados mundialmente.

De acordo com o relatório da AI sobre o albinismo – com base em dados que abrangem 159 países e que oferecem uma análise sobre o estado dos Direitos Humanos à escala mundial –, em 2017 os incidentes de perseguição aumentaram e há inclusivamente conhecimento de, pelo menos, 13 albinos mortos só em Moçambique, embora a entidade admita que o número possa ser superior. Só ao longo do ano passado cerca de 30 mil albinos foram vítimas de discriminação e marginalizados naquele país.

“Os homicídios foram motivados por superstição ou mitos relacionados com poderes mágicos das pessoas com albinismo. A maioria dos homicídios ocorreu nas províncias do centro e do norte, as regiões mais pobres do país”, indica o relatório da Amnistia divulgado em fevereiro deste ano.

Ainda de acordo com o documento, uma criança albina de apenas sete anos foi morta a 31 de janeiro de 2017, no distrito de Ngaúma, em Moçambique, por quatro homens que a raptaram enquanto dormia.

Mas há mais. A 28 de maio do ano passado também um bebé de três anos foi retirado à mãe no distrito de Angónia, acabando por ser morto para que os seus órgãos fossem vendidos.

No dia 13 de setembro, um jovem de 17 anos foi morto na zona de Benga. Os autores do crime removeram o seu cérebro, o cabelo e os ossos dos braços. 

Nestes três crimes, nenhum dos responsáveis foi detido ou julgado. “Apesar da indignação da população, o governo fez pouco para resolver o problema. Foi concebida uma estratégia para impedir as mortes, no entanto não foi implementada, alegadamente por falta de recursos”, escreve a AI no relatório. As vítimas continuam à espera que se faça justiça.

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