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Olivier Truc. O truque para escrever um policial étnico? Matem o cliché e não leiam a Wikipedia

Olivier Truc. O truque para escrever um policial étnico? Matem o cliché e não leiam a Wikipedia

Mafalda Gomes Mariana Madrinha 10/10/2018 12:16

O autor esteve em Lisboa a propósito do lançamento de “Quarenta Dias sem Sombra”, que já recebeu 25 prémios internacionais

Há exatos seis anos, Olivier Truc era um correspondente francês radicado na Suécia, para onde se tinha mudado muito jovem, atrás da namorada natural daquele país, quando publicou aquela que viria a ser a sua primeira incursão no mundo da ficção: “Quarenta Dias Sem Sombra”. Olivier diz que o livro, recentemente publicado em Portugal pela Planeta, foi uma espécie de “acidente” - um tropeção que já lhe deu mais de uma vintena de prémios -, mas sobretudo a forma que arranjou de falar sem floreados do povo indígena sami. A narrativa - que tem sido descrita como um “policial étnico” - foca-se nas particularidades culturais deste povo da Lapónia e na experiência que Truc teve enquanto repórter acompanhando a Polícia das Renas - uma autoridade que, pese embora o nome que nos puxa um sorriso, tem um trabalho muito específico: mediar os conflitos entre os pastores destes animais. Este é o primeiro livro de uma trilogia entretanto já terminada por Truc, que há cerca de um ano e meio arrumou as botas de correspondente para se dedicar em exclusivo aos livros. “Acredito que serei jornalista até morrer. Mas não tenho saudades das notícias do dia a dia”, assume entre um sorriso e um esgar logo em começo de conversa na biblioteca do Palácio das Galveias, em Lisboa. Portugal vai tornar-se, em breve, parte do seu roteiro ficcionado, já que no seu próximo livro - um romance histórico fundeado no século XVII - uma das personagens é especialista em cartografia, arte que aprendeu na Escola de Sagres do infante D. Henrique. 

Que tipo de jornalismo começou a fazer quando se mudou para Estocolmo em 1994?

Mudei-me para a Suécia porque conheci uma rapariga sueca em França, onde já era jornalista. A maneira mais óbvia de continuar a ser jornalista era tornar-me num correspondente. E como correspondente temos que acompanhar tudo e sermos geniais sobre todos os assuntos: política, economia, cultura, etc. Às vezes sobre temas sobre os quais não sabias nada no dia anterior. E, apesar de levar uns pontapés, adorava essa adrenalina. Grande parte do segredo desse trabalho é dares tudo de ti a um assunto novo ou a uma nova história de forma muito, muito rápida. No dia seguinte tens que mandar o artigo, sentes-te bem por o trabalho estar feito - talvez não esteja perfeito, mas está feito e até recebes alguns créditos por ele - e segues para o próximo. E acompanhar assuntos tão diferentes, desde a diplomacia ao crime, desporto, fazer diversos perfis... É muito recompensador. Fazia tudo e em países diferentes, porque era correspondente em sete países do norte da Europa e do Báltico. Viajava muito e adorava essa vida.

E foi aí que começou a conhecer e apaixonar-se pela cultura escandinava ou já tinha algum interesse prévio nestes países antes de se mudar?

Quando cheguei não ligava nada às histórias e à cultura, era totalmente ignorante e vivia muito bem com isso (risos). Os países nórdicos e a Escandinávia eram grande buraco negro no meu mapa mental. Então conheci a minha namorada sueca e comecei do zero, o que foi excelente para um jornalista porque não tinha qualquer ideia preconcebida sobre nada. Por isso fui como uma esponja, e foi maravilhoso não ter pressão dos jornais para os quais trabalhava simplesmente porque eles também não queriam saber dos países nórdicos. Podia escolher sobre o que quisesse. Nos meus primeiros anos na Escandinávia tinha muito pouco trabalho - era freelance e ninguém em França se preocupava com o que se passava por lá.

E quando é que isso começou a mudar?

Mudei-me para a Suécia em janeiro de 1994 e as coisas começaram a mudar em setembro/outubro desse ano por diferentes razões. A principal foi um grande acidente com um ferry chamado Estonia que se afundou no Báltico. Morreram 852 pessoas. Foi uma catástrofe mas para mim, como correspondente, foi uma enorme história. Foi um drama, claro, teve um enorme impacto e segui esse caso durante meses. Isto a juntar aos referendos da U.E. na Finlândia, Suécia, Noruega. As pessoas de repente ficaram interessadas e eu fiquei com muito trabalho para diferentes jornais, rádios e televisões. Nos anos seguintes fui ganhando nome e foi ficando tudo mais fácil, até porque aprendi sueco. 

Hoje é fluente?

Sou. Quer dizer, as pessoas de lá percebem pelo meu sotaque que não sou sueco, mas sou fluente. E falar a língua tornou-se fulcral uma vez que comecei a viajar muito porque essa é, penso eu, a forma como um correspondente se deve comportar para conseguir fazer o seu trabalho: conhecer as pessoas, os sítios, não ficar fechado no seu escritório. Quanto mais viajas mais histórias tens. E quanto mais ficava interessado mais coisas interessantes descobria.

Hoje sente que sabe mais sobre história sueca ou francesa?

Essa é uma boa questão para a qual não tenho resposta. Julgo que sou bastante bom nas duas. Sei muito sobre história sueca porque o meu próximo romance, por exemplo, será histórico e desenrola-se nestes dois países, pelo que li e aprendi muito sobre isso. Mas como jornalista tive que me inteirar da história moderna do país; por outro lado conheço muito bem a história de França.

Quando chegou à Suécia quais sentiu que fossem as principais diferenças entre estas pessoas e os franceses? Houve algo que o chocou de uma maneira positiva ou negativa? 

Dizer que alguma coisa me chocou seria um exagero, até porque a Suécia é um país europeu. Mas há algumas coisas... À primeira impressão os suecos parecem muito tímidos, distantes, reservados, demora tempo a conhecê-los. Mas eu não me posso queixar muito porque não fui introduzido como um estrangeiro total - afinal, a minha namorada era sueca. Por isso muito rapidamente tive acesso à sua família e amigos, não tive aquele problema de ficar sozinho à noite. Mas claro que talvez houvesse aquela coisa de cumprimentar as pessoas no bairro e elas não respondiam, e eu não sabia porquê, não percebia a distância. Mas ao mesmo tempo são pessoas que não te chateiam, que te respeitam assim como esperam que os respeites, que mantenhas a tua distância. É preciso algum tempo para te tornares próximo deles - se te tornares próximo deles. E tens que respeitar isso e adaptares-te - eu era o estrangeiro, eu é que tinha que me adaptar, não o contrário. Mas a partir do momento em que percebes as dinâmicas as coisas acontecem. Não me posso queixar, os meus filhos nasceram e cresceram na Suécia, conheci muitas pessoas por causa da escola deles. Os suecos respeitam-se muito uns aos outros, são pessoas muito pacíficas, respeitam e confiam muito as autoridades, mais do em França, por exemplo.

E respeitam a diferença?

Algumas pessoas, não todas. Há um partido da extrema-direita com raízes no neonazismo que não respeita as outras pessoas.

O Stieg Larsson descreve uma sociedade muito fechada de um certo ponto de vista.

A Suécia é um país interessante porque eles são os reis da polidez. É fascinante em muitas maneiras: eles não querem magoar-te, querem respeitar-te, são dos melhores do mundo com as minorias e os direitos humanos e essas coisas. Mas... não respeitam as suas próprias minorias. E aí tu começas a pensar: mas o que há de errado com este país, afinal de contas, por baixo das coisas bonitas e da aparência? Mais uma vez, fui correspondente destes países durante muitos anos, escrevi muitas coisas boas sobre eles, mas sei que há muitas coisas que não correm bem. Há racismo, há muitas pessoas que não confiam nos estrangeiros, especialmente no interior do país.

E pela sua experiência isso está a diminuir ou a aumentar?

Agora está a aumentar. Tivemos eleições legislativas há pouco tempo e o partido da extrema direita (Sweden Democrats) teve mais de 17% dos votos, que foi o seu melhor resultado de sempre. E quem mede o pulso da opinião afirma que vão crescer ainda mais, até aos 25%. Por isso sim, a sociedade está a mudar, mas isso também está a acontecer em França, onde a extrema-direita também está a crescer muito. Por outro lado temos, nos dois países, pessoas que expressam tolerância e este grupo está também a aumentar. Isto significa que a Suécia está a ficar igual a outros países europeus, onde se assiste à polarização da sociedade.

Define-se como um jornalista que sempre quis ser escritor ou teve sempre um escritor a chorar dentro de si porque não saía?

Não, absolutamente não. Tornei-me escritor por acidente. Não tinha nenhum sonho de ser escritor.

Ninguém escreve 400 páginas por acidente...

Bem... Como jornalista tinha feito muitas histórias no norte da Escandinávia sobre, entre muitas outras coisas, a Polícia das Renas. Escrevi diferentes artigos, alguns muito longos, para o “Liberátion”. Depois disso pediram-me para fazer um documentário de 52 minutos sobre este tema. Passei quase dois meses a seguir estes polícias no seu trabalho com a minha mota da neve, com temperaturas de 30 graus negativos, vivi com eles. E o meu primeiro pensamento depois do documentário, com todo o material que tinha recolhido e que achava muito excitante, era escrever um livro de não ficção sobre o que tinha visto. Nessa altura já tinha escrito dois livros de não-ficção, uma espécie de longas reportagens. Ainda não me via como um escritor, talvez nem hoje, porque...

Nem hoje?

Hoje talvez já tenha começado a fazê-lo, mas leva tempo (risos). Mas estes dois primeiros livros de não ficção, que eram retratos dos sobreviventes dos gulags, levaram-me três anos de pesquisas em diferentes países e muitos anos para escrevê-los. Mas foi tudo como jornalista, seguindo as regras. Quando estava a falar com a minha editora sobre o livro da Polícia das Renas ela perguntou-me porque é que não escrevia um romance. Disse logo que não, que não era um escritor, que era jornalista e que sentia que escrever um romance sobre a Polícia das Renas seria uma traição, quer para as pessoas com quem tinha estado quer para a minha identidade como jornalista. Não estava preparado para fazê-lo. Mas ela pôs a ideia na minha cabeça.

E a semente cresceu.

Exato. De repente tornou-se muito sedutor o facto de ter me esquecer que tinha ser muito rígido, e de seguir apenas os factos. E depois, quando comecei a preparar o material o livro da Polícia das Renas, nem sei bem como, mas comecei a imaginar uma romance: quais as histórias que queria contar, as personagens...

Teve aulas de escrita criativa?

Não. E havia outra coisa: não lia policiais, de todo. Por isso pedi conselhos aos meus amigos que eram leitores deste estilo, li alguns e depois fui pelo meu caminho.

Uma primeira tentativa que lhe valeu 22 prémios internacionais...

Bem, na verdade já são 25 (risos).

E quantas traduções?

20!

Esperava este tipo de reação?

Foi uma surpresa total. E ainda por cima uma história sobre a Polícia das Renas, um tema tão particular... Quem quereria saber de uma história assim (risos)? Mas também sei, tendo sido jornalista por 30 anos e tentado muitas vezes encontrar o ângulo mais original, que poderá ter a ver com isso. Neste caso, lia os artigos dos meus colegas sobre o norte da Escandinávia, que conhecia muito bem, e achava-os muito clássicos. Falavam sempre do povo sami como nómadas, as guerrinhas internas dos bons contra os maus, o que era uma treta. Eu sabia que não era assim, que esta era uma realidade muito mais complicada. Como jornalista temos de lidar com estas histórias complicadas e encontrar uma maneira de contá-las. É o nosso trabalho, a vida não é branca e preta, isso é para os tontos. Quando encontrei a Polícia das Renas pareceu-me que eles eram a meio certo para contar a história da vida do dia a dia no norte da Escandinávia. Seguir estes polícias foi muito especial porque ninguém sabe quase nada sobre eles e sobre esta parte da Lapónia na Noruega, por exemplo. Comecei a acompanhá-los e isso abriu para mim um novo mundo, cheio de coisas às quais nunca teria acesso se tivesse ido por uma via clássica. Há muitos conflitos de longa duração. Por isso é que este é um trabalho que demora muito tempo e indo com estes polícias, que conhecem toda a gente, tive acesso muito mais rápido ao povo sami.

Acredita que os sami são dos povos menos conhecidos do mundo? Por exemplo, quase todos já ouvimos falar dos masai, de África, dos povos indígenas mexicanos ou brasileiros. Mas eu nunca tinha ouvido falar dos sami que, geograficamente, estão muito mais próximos.

As pessoas só conhecem as renas e o Pai Natal, e algumas o povo sami, que descrevem como o último povo nómada da Europa, o que é mentira. Eles não são nómadas desde os anos 60, desde que tiveram acesso a motas da neve. Mas as revistas dos diferentes países persistem em contar a história desta forma. É o que se sabe na Europa. Não se sabe que 90% dos sami já não sobrevivem de uma economia ligada às renas: são médicos, jornalistas, mecânicos, etc. E a maioria deles já não vive na Lapónia, mas em Estocolmo ou Oslo e tu nem sabes que eles são sami, porque não têm nenhuma característica física distintiva.

Acredita que o seu livro desmonta esses mitos e mostra quem são afinal os sami?

Sim. Acredito que, com o meu livro, as pessoas podem aprender mais sobre os sami. Obviamente não sou o único a fazê-lo, mas essa foi uma das razões que me fez querer escrever. Estava cansado da forma como a maioria dos jornalistas e realizadores retratavam estas pessoas: na maioria das vezes cliché, cliché, cliché.

Falou com muitas pessoas sami para escrever este livro. Mencionou alguma vez a história do Pai Natal que é o grande cartão de visita da Lapónia?

Não falei de nada disso, se não matavam-me (risos). Eles estão tão cansados disso, furiosos, na verdade. Uma vez escrevi uma história para o “Le Monde” sobre o conflito entre herdeiros das renas e companhias de gás na parte sueca da Lapónia. E um editor meteu um título do género: “Guerra na terra do Pai Natal”. Tive muitas reações de pessoas sami que ficaram absolutamente irritadas, eles não estão num zoo, são pessoas de verdade a lutar pelos seus direitos.

Qual é o conselho que daria a alguém que estivesse a tentar escrever um policial étnico, o nome pelo qual tratam o seu livro?

Matem o cliché, não leiam a Wikipedia, viajem e passem tempo com as pessoas sobre as quais querem escrever. Para mim grande parte do prazer de escrever estes livros é conhecer pessoas.
 

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