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Surf. O anjo Gabriel que abriu as asas em direção ao topo

Surf. O anjo Gabriel que abriu as asas em direção ao topo

AFP Laura Ramires 19/12/2018 11:14

Nasceu com o dom, como se costuma dizer. Religioso, voltou a agradecer aos céus mais uma conquista. É o segundo título mundial da modalidade para Gabriel Medina

Não quis o destino que Gabriel Medina fosse coroado o rei das ondas em mar português.

Há dois meses, o surfista brasileiro teve a oportunidade de se sagrar campeão em Peniche, na Praia dos Supertubos, na penúltima etapa do circuito mundial de surf. Depois de ter visto os seus adversários diretos na luta pelo título serem precocemente eliminados, o jovem de Maresias sabia que em caso de vitória na prova penicheira garantia automaticamente o trono da World Surf League (WSL).

Não se lançaram os foguetes, mas preparou-se a festa. O círculo próximo do surfista de 24 anos fez-se notar e até o futebolista brasileiro Neymar fez questão de voar para Portugal para marcar presença no areal.

Medina acabaria, contudo, por ser afastado na meia-final da prova portuguesa pelo seu compatriota Ítalo Ferreira, que venceria pela primeira vez o Meo Rip Curl Pro Portugal.

A decisão derradeira teve, assim, de seguir para a etapa final do World Tour (WT), disputada, como já é habitual, no Havai. Apesar da vantagem que Gabriel Medina segurava – tendo aterrado em Honolulu, no início deste mês, como líder do ranking mundial da WSL –, o mestre dos aéreos sabia que ainda tinha a concorrência do australiano Julian Wilson e do também brasileiro Filipe Toledo, os dois surfistas que matematicamente ainda podiam ambicionar o título.

Contas feitas, e para não ficar no desconforto de depender de terceiros, Medina sabia que precisava de chegar à final (ainda que não a vencesse) em Pipeline para confirmar a conquista e, desta forma, revalidar o título alcançado em 2014 – ano em que se sagrou campeão mundial de surf pela primeira vez, tornando-se o primeiro surfista brasileiro a atingir o feito.

E assim foi. Ou melhor ainda. Medina não só chegou à final como inscreveu pela primeira vez o seu nome na lista de vencedores da etapa havaiana. Já depois de saber que seria o sucessor do havaiano John John Florence – campeão mundial em 2016 e 2017 –, o surfista brasileiro derrotou Wilson no heat derradeiro, com um somatório de 18,34 pontos entre as suas duas melhores ondas, contra os 16,70 do adversário.

No fim, e tal como é seu hábito antes de cada prova, ou simplesmente antes de entrar no mar nas suas sessões de treino, Medina voltou a agradecer a Deus. “Toda honra e toda glória sejam dadas a ti, Senhor”, escreveu nas redes sociais após a conquista do bicampeonato.

Um quarto de século de vida dedicado ao mar Natural de Maresias, a praia sempre foi um habitat natural para Gabriel Medina. Todavia, o surf apareceu de forma inesperada na vida do jovem brasileiro, que está a três dias dias de completar 25 anos.

Foi das mãos do seu padrasto, Charles, que recebeu a primeira prancha. Iam os dois de praia em praia analisando a modalidade e as performances de Gabriel. Sempre foi talentoso, diz-se, e ninguém desconfia. Especialista nas manobras aéreas, Gabriel Medina faz da prancha uma arte que associamos de forma natural a um dom. Ainda que não menospreze o trabalho, que o faz superar-se constantemente. Esta temporada retrata, de resto, isso mesmo. Um ano muito regular, no qual se destacam, ainda assim, as exibições a partir da segunda metade do circuito. A partir da sétima etapa, o brasileiro acumulou três títulos, em Teahupo’o, no Taiti, no Surf Ranch, a piscina de ondas de Kelly Slater, nos Estados Unidos, e no Havai, além de dois terceiros lugares nas duas etapas europeias, em França e Portugal.

Mas não percamos a maré.

Medina começou a praticar surf com apenas nove anos e, aos 11, já vencia o seu primeiro campeonato a nível nacional, a etapa Rip Curl Grom Search, na categoria Sub-12, disputada em Búzios, no Rio de Janeiro.

As suas exibições não demoraram a dar que falar e a chamar a atenção. De tal forma que, em 2009, a Rip Curl ofereceu-lhe um contrato e tornou-o surfista profissional. Dez dias depois do acordo assinado com a empresa australiana, com apenas 15 anos, já era o mais novo de sempre a vencer uma etapa profissional – deixando cair uma marca com mais de três décadas, pertencente a Nick Wood que, em 1987, havia conquistado uma etapa com apenas 16 anos.

Apenas dois anos mais tarde, em 2011, Medina ingressou na elite mundial (World Tour), com apenas 17 anos, tornando-se o mais jovem brasileiro a consegui-lo. Mais: como rookie [ano de estreia no circuito mundial], o surfista brasileiro venceu duas etapas do World Tour, disputadas em França e nos EUA.

Ainda antes de conquistar pela primeira vez o troféu mais valioso da modalidade, Gabriel Medina ganhou o World Junior Tour em 2013. Além disso, entre o título mundial de 2014 e o de 2018, Medina sempre mostrou a sua força com um terceiro lugar em 2015 e 2016 e o segundo posto em 2017.

Foi, aliás, nesse período, mais especificamente em 2016, que uma das suas manobras correu mundo: Medina concluiu com sucesso um backflip [salto mortal de costas], manobra realizada pela primeira vez em competição, o que lhe valeu um 10 [nota máxima] no heat do Oi Rio Pro daquele ano.

 

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