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Suzanne Dodd. “Temos a ideia de que o Espaço é movimentado mas é 99,9% vazio”

Suzanne Dodd. “Temos a ideia de que o Espaço é movimentado mas é 99,9% vazio”

Marta F. Reis 19/12/2018 23:33

A Voyager 2 entrou em novembro no espaço interestelar. Responsável da NASA fala das expectativas em torno da missão

É uma das missões mais icónicas da NASA. Lançadas para o Espaço em 1977, as sondas Voyager 1 e Voyager 2 levam a bordo discos com sons da Terra e mensagens de boas-vindas em 55 línguas, incluindo português. Na semana passada foi confirmado um novo marco: seis anos depois da “irmã” Voyager 1, a sonda Voyager 2 entrou no espaço interestelar, deixando assim a zona de maior influência do sol. Segue agora viagem para a fronteira do sistema solar. Suzanne Dodd, gestora de projeto na NASA, conversou com o i sobre os desafios e as expectativas em torno da missão. E explica em que cenário seria expectável “alguém” pôr a tocar os famosos discos desenhados por Carl Sagan. Se algum dia acontecer, os votos em português são “paz e felicidade para todos”.

Depois da Voyager 1, a Voyager 2 é o segundo objeto feito pelo Homem a alcançar o espaço interestelar. Como é o ambiente fora da sonda?

Muito frio, a temperatura é de cerca de -45 graus Celsius. Temos de manter o interior acima de 3,9oC para que a sonda continue operacional e isso é um dos grandes desafios da missão: temos de manter um grande número de componentes ligadas para que possam aquecer o ambiente. Se desligássemos tudo para gastar menos energia ficaria demasiado frio. É nesse equilíbrio que temos estado a trabalhar. 

Que fonte de energia é usada?

A nave tem geradores termoelétricos de radioisótopos. É uma fonte de energia nuclear a partir do decaimento radioativo do plutónio-238. O problema é que todos os anos temos menos 4 watts de energia. Nos últimos anos estivemos a tentar atravessar a heliosfera (região periférica do sol) e manter tudo ligado. Felizmente conseguimos, mesmo sendo a Voyager 2 um bocado mais fria. A Voyager 1 foi lançada uns dias mais tarde mas deu tempo para melhorias no cobertor térmico a bordo da sonda.

A Voyager 2 está no espaço há 41 anos e já percorreu 18 mil milhões de quilómetros. Como é que a sonda se desvia de potenciais obstáculos? É um milagre nunca ter chocado com nada?

Não propriamente. Há muita coisa no espaço mas a maioria do espaço, 99,9% do espaço, é vazio. O espaço é enorme, super frio e super vazio. Pensamos no espaço como um sítio movimentado porque há muitas coisas em torno da Terra e do Sol, mas quando se chega ao espaço interestelar, o espaço entre estrelas onde está a Voyager, não há quase nada.

A Voyager 2 pode estar quando tempo a navegar sem se cruzar com nenhum objeto? Anos?

Anos, décadas, centenas de anos. A parte perigosa da missão foi a parte planetária, logo depois do lançamento, quando passou por Saturno e Júpiter. Isto na perspetiva de que poderia ter encontrado algum obstáculo ou um campo radioativo que pudesse danificar os equipamentos a bordo. Depois de passar Neptuno, e então depois de deixar do campo gravitacional do Sol, não há muito mais com que nos preocuparmos. Esperamos chegar à nuvem de Oort [uma nuvem de material na fronteira do sistema solar] daqui a 300 anos e não conheço em detalhe o modelo de quantas rochas e cometas estarão nessa região, mas duvido que tenhamos de nos preocupar com a hipótese de a sonda bater em alguma coisa. 

Estimam que sejam precisos 30 mil anos para atravessar essa região. Nessa altura, há muito que não saberemos nada da sonda.

Sim. Por essa altura a energia da nave que permite manter comunicações com a Terra já terá acabado há muito tempo, será uma missão silenciosa.

É expectável que chegue mesmo lá?

Para já sabemos que a Voyager 2 vai ficar sem energia. Começaremos por desligar o aquecimento e depois os restantes equipamentos. No final da década de 20 não haverá energia para ter os transmissores a funcionar, por isso acreditamos que teremos os últimos sinais da sonda em 2029 ou 2030. Não teremos mais informação, nunca mais ouviremos nada dela, mas isso não significa que a sonda não continue. Está numa trajetória que a leva para fora da Terra e cada vez para mais longe da influência do Sol e isso não vai mudar.

Os discos de ouro a bordo tanto da Voyager 1 como da Voyager 2 são o lado simbólico da missão: funcionariam como um cartão de visitas da Terra se fossem encontrados por vida inteligente. Teriam de ser ativados?

Têm instruções para os pôr a tocar. Os discos têm fotografias e sons da Terra, reunidos por Carl Sagan com o objetivo de representar os diferentes países e vida no planeta. Tem uma capa de ouro e é lá que estão as instruções. Portanto a ideia é essa, que de alguma forma vida extraterrestre os conseguiria pôr a tocar e mais: calcular de onde foram enviados com base num mapa com referências como pulsares.

Para isso acontecer, a sonda teria de cair em algum lado e os discos serem recuperados. Não é pouco provável? 

Poderia haver por exemplo uma nave lá fora de outra civilização que se cruzasse com as Voyager… são tudo cenários, não podemos prever o futuro.

Seria esse o culminar da missão ou o interesse no dia a dia vai muito além disso?

Estamos muito satisfeitos e aliviados por termos conseguido que a Voyager 2 atravessasse a fronteira da heliosfera e entrasse no espaço interestelar, por toda a informação que isso nos dá sobre esta bolha de partículas que envolve o sistema solar. Esta é uma missão de exploração e agora temos duas sondas que estão no espaço interestelar e como conseguimos mantê-las operacionais até aqui conseguimos continuar a receber informação e fazer medições de regiões onde a humanidade nunca tinha ido. Se chegarmos a 2027 com as sondas operacionais, serão 50 anos no Espaço.

O mundo mudou muito desde o lançamento das Voyager há 40 anos. Os telemóveis estavam mesmo no início. Como é que se explica a longevidade da missão e de sondas desenhadas num tempo tecnológico completamente diferente?

É surpreendente. Então se pensarmos que as missões foram desenhadas para as Voyager durarem 4 anos ficamos perplexos. Fomos estendendo a missão com algumas melhorias técnicas e tem resultado. Mas desde o início que a missão tem sido uma sucessão de surpresas.

A que velocidade vai a Voyager 2?

Viaja a 35 mil milhas por hora (cerca de 56 mil quilómetros por hora).

Comparando com a atual tecnologia e design, seria possível maior rapidez?

Acho que iríamos querer fazer as coisas mais rápido e não levar 40 anos até alcançar o espaço interestelar. Fala-se de conseguir melhores designs e encurtar a duração viagem para metade. Precisamos de ter um foguetão muito pesado para lhe dar grande velocidade ao início e depois ter uma sonda o mais leve possível para viajar rapidamente.

E comparando custos, hoje seria mais caro ter uma missão assim?

Recriar o que fizemos com a Voyager seria hoje 4 ou 5 vezes mais caro do que custou na altura. Nos últimos anos 25 anos os gastos da missão foram muito baixos, a parte do lançamento e de navegação planetária foram os mais dispendiosos.

Que perguntas gostava que a Voyager ajudasse a responder enquanto ainda é possível ter acesso a dados?

São muitas. A maior seria talvez ajudar a perceber qual é o formato da nossa heliosfera. Atualmente há três modelos: pode ter uma formato circular, o formato parecido com a cauda de um cometa ou o formato de um “croissant”. Os dados da Voyager vão ser centrais para resolver essa controvérsia. Se percebermos o formato da heliosfera vamos perceber melhor como é que o Sol interage com o espaço, como é que as estrelas são formadas e crescem e como é que os planetas se desenvolvem à volta do sol. 

Ter respostas sobre nós?

Vivemos na Terra, um planeta muito especial. As questões vão sempre parar aí: perceber a heliosfera é mais uma maneira de nos ajudar a perceber os processos fundamentais que levaram a que evoluíssemos aqui.
 

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