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Cirque du Soleil. O espetáculo mais português de sempre chegou a Lisboa

Cirque du Soleil. O espetáculo mais português de sempre chegou a Lisboa

Filipa Traqueia 07/01/2019 08:30

Dois olhos e um nariz: foi assim que a palavra Ovo ganhou vida e se transformou na colónia de insetos que enche o Altice Arena desde a passada quinta-feira. Enquanto, no palco, os artistas mostram os seus números num espetáculo de cor e música, por trás do pano preto está um mundo diferente em que os treinos e a concentração são as palavras-chave

De robe preto com o símbolo do Cirque du Soleil bordado a dourado na parte de trás, maquilhagem carregada e cheia de brilho, passa um dos artistas pelos corredores cinzentos dos bastidores do Altice Arena. Ao mesmo tempo, na plateia, os espetadores vão-se sentando. O burburinho sobrepõe-se ao som dos grilos e entre as fileiras de cadeiras passa uma aranha gigante. Não precisa de ter medo, é só o início da viagem à colónia dos insetos.

Não é só o nome “Ovo” que faz deste espetáculo o mais português de sempre. Deborah Colker foi a primeira mulher a dirigir um espetáculo do Cirque du Soleil e colocou nas coreografias e músicas de “Ovo” um toque do seu país natal, o Brasil. “Tudo é inspirado naquele toque brasileiro e português, desde a música do samba às cores dos fatos e ao estilo das personagens”, explica ao i Tim Bennett, diretor artístico.

“Deborah viu muitas imagens e muitos documentários de insetos, pegou nos seus movimentos e transformou-os em coreografias”, e os números acrobáticos também foram pensados para serem semelhantes aos comportamentos dos bichos. Enrolado num casulo, um acrobata renasce como uma borboleta e mostra as bonitas asas ao sobrevoar o palco. A aranha contorcionista, os grilos saltitões e o bicho-da-seda equilibrista são só alguns dos insetos que mostram as suas habilidades. “Um grilo salta 800 vezes o seu próprio tamanho, que número poderíamos associar? Os trampolins saltam muito alto, por isso, os nossos grilos tornaram-se o número dos trampolins. As nossas tiras andam no ar e são muito leves, as nossas borboletas tornaram-se o nosso número de tiras”, explica o diretor.

Mas, ao contrário do que acontece com os insetos, as atuações não são inatas e os treinos são uma constante nas tours do Cirque du Soleil. Uma das partes que viajam sempre com a equipa é um pequeno ginásio que, em Lisboa, está montado mesmo por trás do palco. O plano de treinos é feito em função do número de espetáculos: nos dias em que há dois espetáculos, o acesso ao palco para os treinos torna-se limitado e os “bastidores são muito usados”, conta ao i Emerson Neves, diretor dos treinos. 

“Todos os artistas que entram num novo espetáculo têm de fazer um plano de treino com as medidas de segurança” porque, para além da dificuldade dos números, o artista tem de se habituar à roupa, à luz e à própria estrutura usada no espetáculo. Até porque não são só artistas de circo que chegam ao Cirque du Soleil, mas também atletas profissionais. “Normalmente, os artistas de circo, quando chegam, já têm um treino artístico. Então, essa parte é mais fácil. O atleta, quando vem, vem como atleta, e essa parte artística tem de ser treinada”, conta o diretor.

Emerson Neves já pisou o palco como artista mas, agora, a responsabilidade aumentou. “Quando eu estava no palco, a responsabilidade era comigo mesmo, agora não. Sou responsável por todos eles. O treino de segurança, a qualidade do que eles fazem é tudo responsabilidade minha.”

 

 

Todas as cores pelo mundo Em dias de espetáculo, o trabalho nunca para: uns atrás dos outros, os artistas vão subindo ao palco para treinarem os seus números. Do lado de trás do pano pintam-se acessórios, cosem-se capacetes, reparam-se sapatos. “Há sempre muita coisa para arranjar”, afirma Mar Gonzalez Fernandez, responsável pelo guarda-roupa. As cores dos fatos enchem a sala, mesmo só estando lá os fatos suplentes de cada um dos artistas. Na sala há um cheiro a detergente da roupa, o mesmo que se sentia pelos corredores perto da lavandaria. Entre os 23 camiões que compõem a tour do Cirque du Soleil estão várias máquinas de lavar e material de lavandaria. Antes do espetáculo já não está quase nada a secar e poucas são as máquinas em funcionamento.

“Nós não viajamos com poucas malas”, diz Nicolas Chabot, relações públicas da companhia. “Agora temos 100 pessoas em tour, vindas de 24 países diferentes - um deles é Portugal -, a viajar com 180 malas de bens pessoais. Temos autorização para ter duas malas cada”, explica. Quanto às tours, normalmente duram uma semana em cada cidade, mas, em Lisboa, o espetáculo prolonga-se até dia 13 de janeiro e já foi anunciada uma sessão extra no dia 11.

 

Uma história de amor e tolerância

Ao chegar à colónia de insetos, o Mosquito, interpretado por Jan Dutler, não é muito bem recebido, e a Joaninha, a quem Neiva Nascimento dá vida, é a única que não se sente intimidada pela presença deste ser diferente. “Eu acredito que a Joaninha introduz no espetáculo a aceitação”, conta a artista. “Um ser estranho vem para a colónia como sendo um intruso e a Joaninha não teve medo, abraçou-o com todo o carinho e mostrou aos outros insetos que ele pode fazer parte da colónia”, explica, reforçando que a mensagem do espetáculo é de aceitação e inclusão.

A própria artista juntou-se à companhia do espetáculo “Ovo” já o elenco estava em tour. Depois de dez anos a candidatar-se para integrar a equipa do Cirque du Soleil, em 2014, Neiva recebeu o telefonema a convidá-la para se tornar a Joaninha. “Eu não acreditei, pensei que era a brincar”, recorda. O primeiro espetáculo que fez foi no Japão e as “barreiras da língua e da cultura” foram os principais desafios. “Eu realmente não consegui fazer muitas amizades ao princípio, mas todos foram muito carinhosos, dentro do possível. Todos têm as suas dificuldades mas, para ser sincera, a barreira da língua não foi a principal. Foi a saudade de casa, da família, da nossa cultura. Estamos a lidar com outras pessoas completamente diferentes, mas eu consegui abraçar a causa e estamos aqui todos unidos.”

Cada elemento da companhia só mata as “saudades de casa” a cada dez semanas. O espetáculo para durante duas semanas e tanto artistas como técnicos podem visitar as suas famílias nos seus países natais. “Passamos mais tempo aqui do que com a nossa própria família”, reforça a artista. No entanto, a próxima digressão do espetáculo “Ovo” tem um gosto especial para Neiva Nascimento. Depois de Lisboa e de Múrcia, em Espanha, o Cirque du Soleil cruza o Atlântico para se estrear no Brasil. “Eu já estou nervosa antes de lá chegar”, confessa a artista, garantindo que algumas amigas já compraram bilhetes para assistir ao espetáculo. Belo Horizonte será a primeira cidade a receber a tour, que irá passar pelo Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.

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