26/3/19
 
 
José Paulo do Carmo 11/01/2019
José Paulo do Carmo

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O senhor e a senhora lá de casa

Há cerca de dois anos, aquando do desfile da Victoria’s Secret em Paris, perguntei a Elsa Hosk (uma das manequins) como convivia com tanta pressão e exposição pública e o que achava ela disso. Achei curioso ter respondido que tinha um “equilíbrio de papel”. Que vivia constantemente preocupada com a imagem que passava para fora e que em atos públicos tinha de encarnar uma personagem que havia criado mas que não correspondia ao que era em privado. Deu o exemplo da festa pós-desfile para explicar que tentava não se prolongar muito nesse tipo de eventos com receio de que, se conseguisse descontrair-se, lhe pudessem apanhar alguma atitude que tivesse eventualmente consequências negativas para a sua carreira. Que às vezes adorava ser invisível. 

Numa sociedade em que todos somos juízes das redes sociais e em que vale tudo para gozar, achincalhar, denegrir e humilhar a vida de alguém, muitas vezes por puro prazer ou inveja, o novo luxo é cada vez mais passarmos despercebidos. Não ser falado, não estar sujeito a linchamentos em praça pública nem ao veredicto de pessoas muitas vezes frustradas e ávidas de “sangue” para esquecerem por momentos vidas sem interesse ou problemas pessoais. O ser humano tem esta mania estúpida de se alimentar com o mal dos outros. De crescer com a diminuição de alguém. E por isso, quando a maior parte do mundo passa o tempo a desejar ser famosa, a fazer de tudo (e às vezes é meeeeesmo tudo!) para conseguir os seus minutos de fama e a invejar as vidas dos outros, esquecem-se que esse paraíso aparente pode, na verdade, ser um autêntico inferno. Não é, por isso, de estranhar a quantidade de suicídios existentes no meio, já para não falar das comuns depressões e doenças do foro psíquico.

O caso desta semana que envolveu a Judite Sousa é paradigmático disto mesmo, ou seja, é já tal o receio de dizer seja o que for que se acaba por pensar mil vezes na melhor forma de catalogar ou expressar qualquer coisa. Não consigo, sinceramente, perceber qual é o mal de dizer “a senhora lá de casa”, ainda para mais quando também não referiu o nome da mãe. Queriam o quê ? Que dissesse a empregada? Ou criada já acham melhor? Eu, que frequentei a casa porque era (e continuo a ser) amigo do filho, sei do respeito, da cumplicidade e da amizade que nutriam pela dita senhora, Rosa, se preferirem (para não ferir suscetibilidades). De cumplicidade mesmo. Custa-me ainda mais entender como certos tontos como o William Carvalho vão atrás da bola e pegam nisto colocando-lhe mais uma vez o rótulo do racismo, como se agora fosse moda colar tudo ao preconceito. Não imaginam o mal que fazem às pessoas com este tipo de insinuações. Impressionante o gozo de causar sofrimento nos outros.

Quanto ao senhor que nos entra em casa todos os dias e que, por acaso, é também nosso Presidente, cumpre-me dizer o seguinte. É fundamental para a credibilização do sistema político português (se é que isso é possível) existir uma maior proximidade entre os políticos e a sociedade que aproxime as pessoas, que lhes mostre que são ouvidas e que existe essa preocupação. Nisso, Marcelo tem sido muito importante. Acho, no entanto, que está a ir longe demais com o populismo e com a obsessão pela popularidade e pelo voto. Se telefonar para a Cristina Ferreira e para o Roberto Leal me parece que devesse ser feito em privado, como indivíduo e não como Presidente, e se me parece ridículo ter interrompido (segundo ele) uma reunião para ligar, mas ainda assim me parece indiferente ou uma atitude sem grandes consequências reais, já expor em formato circense os sem-abrigo numa ação de consciencialização para a solidariedade me parece retirar-lhes a réstia de dignidade e ser, por isso, de muito mau gosto. Como dizia um famoso DJ, “por vezes meto um ou dois pregos a passar música para eles perceberem que sou eu que estou a passar”. Desconfio sempre dos que buscam de uma forma exaurida a perfeição. O erro faz parte da vida, e é bom admitirmos os nossos de quando em vez e não estarmos permanentemente à procura de ficar bem na fotografia.

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