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Benfica. A tarde em que a águia voou até ao ninho dos Açores

Benfica. A tarde em que a águia voou até ao ninho dos Açores

DR Afonso de Melo 11/01/2019 10:56

Pela primeira vez, o Benfica visitava os Açores para um jogo oficial: quartos-de-final da Taça de Portugal. O campo do Angrense encheu-se com 7 mil pessoas excitadas. A verba que entrou nos cofres do clube foi recorde: 150 contos. Os lisboetas venceram por 2-0. Na segunda mão dariam dez!

1960: na Taça de Portugal, as coisas funcionavam assim: antes dos quartos-de--final decidia-se quais os representantes das colónias e das ilhas. Nesse ano, o Angrense e o União da Madeira, campeões, respetivamente, dos Açores e da Madeira, disputavam a vaga insular. E coube ao clube da Terceira receber o Benfica. Pela primeira vez, os encarnados jogariam oficialmente no arquipélago. Razão para todo o entusiasmo, até porque o Sport Clube Angrense era uma das filiais do Sport Lisboa e Benfica.

Uma breve refletia o estado de espírito dos açorianos: “O jogo Angrense-Benfica, a contar para a Taça de Portugal, que hoje é disputado às 18 horas locais (20 de Lisboa) no campo de jogos da cidade, constitui, pelas suas características, o acontecimento desportivo do ano no Arquipélago dos Açores, tendo atraído a esta cidade centenas de excursionistas, tanto das vizinhas Ponta Delgada e Horta como também de outras localidades. A lotação do estádio está esgotada, tendo sido vendidos mais de 7 mil bilhetes, número excecional para uma população de 60 mil habitantes que é a da Ilha Terceira.”

Assim foi, portanto.

Bancadas a abarrotar, gente pendurada até nos holofotes, dezenas de automóveis estacionados atrás de uma das balizas.

Os campeões insulares contra os campeões da Metrópole!

Cento e cinquenta contos entraram nos cofres do Angrense.

Os adeptos ferviam de satisfação. Não era todos os dias que o grande futebol chegava lá ao meio do Atlântico. As mais altas figuras da região estiveram presentes.

O Benfica entrou em campo com um onze de respeito: Costa Pereira; Ângelo, Artur e Mário João; Inácio e Cruz; José Augusto, Santana, Águas, Coluna e Cavém.

O Angrense tratou de alinhar assim: Barreiros; Miranda, Edmundo e Almeida; Horácio e Pires; Vilaverde, Aníbal, Carlos Silva, Canetas e Laureano.

Ninguém esperava outra coisa que não a vitória do Benfica. Era o que faltava! Mesmo que a eliminatória se disputasse em duas mãos e os açorianos ainda tivessem de visitar a Luz.

Cedo, o povo ficou meio desanimado.

À raça e à gana dos ilhéus (ao tempo usava-se muito a expressão pertinácia), os benfiquistas impuseram um futebol molengão de quem está absolutamente seguro da sua superioridade. Um bocado ao jeito de “não vale a pena ter pressa que a coisa resolve-se mais cedo ou mais tarde”.

Relatava o correspondente do “Diário de Lisboa”: “Os dianteiros do Benfica forneceram fraca amostra de possibilidades no que se relaciona com o remate, cuja produção esteve longe de corresponder tanto às situações criadas como aos lances desenvolvidos com facilidade e perfeição. Umas vezes deixaram-se invadir pela despreocupação, que até certo ponto se compreende, outras, a pontaria e a decisão andaram deles arredias e outras ainda viram-se batidos pela rapidez dos defesas adversários, que constituíram o setor mais seguro da equipa.”

Lá está: mais tarde ou mais cedo...

Golo! Ao passar da meia hora, José Augusto fez o um-a-zero. O golo, no entanto, não abalou a moral dos açorianos. Vendo bem, não era nada de que não estivessem à espera. Trataram de arregaçar as mangas e deitar pelos bofes toda a energia acumulada, à mistura com uma vontade digna do homem do leme do Mostrengo de Pessoa.

“Embora na maioria fisicamente frágeis, os campeões insulares revelaram habilidade, decisão e rijeza na luta, só raro dando indícios de fadiga. Guarda--redes e defesas estiveram em foco, sendo, por vezes, bem auxiliados pelos médios e interiores. Entre os avançados, Canetas mostrou-se o mais perigoso, mas todos claudicaram no capítulo do remate.

Costa Pereira estava ao alto, como se diz na tropa. Isto é, sem nada para fazer. Na véspera, vejam bem, tinha feito de noivo. Representando na boda o seu amigo e ex-jogador do Benfica, José Joaquim Naldo, consorciando-o por procuração com a sra. Dona Maria Guilhermina Fernandes. Até podia ter entrado em campo com o fato que usara na cerimónia. Não havia forma de o sujar muito.

Aos cinco minutos da segunda parte, Cavém fez o 2-0. Ainda ninguém sabia, mas esse viria a ser o resultado final. Muito por culpa de Santana, que falhou situações de golo iminente. Com o decorrer do tempo, a lentidão dos lisboetas foi-se cristalizando. O público que enchia o recinto sentiu que talvez pudesse aspirar à alegria excitada de um golo angrense.

“Houve momentos em que os insulares puderam desenhar alguns lances interessantes, revelando certa desenvoltura na transposição do jogo da defesa para o ataque. Os seus avançados, porém, denotaram timidez na execução do remate, parecendo deslumbrados na altura em que se lhes deparava o ensejo de visar com perigo a baliza. Assim perderam a oportunidade de marcar, pelo menos, um golo à sólida defesa contrária.”

A eliminatória estava, como é de calcular, absolutamente resolvida. No dia 12 seria a vez de o Angrense viajar até Lisboa e apresentar-se no Estádio da Luz. Viajaram os açorianos com o peito enfunado de orgulho, mas acabariam triturados por um Benfica bem menos displicente do que aquele que atuara na Terceira. Uma derrota mais dolorosa do que estariam a contar: 0-10. 

Números redondos que feriam com a ferocidade aguçada do aço. Seja como for, fizera-se História.
 

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