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José Paulo do Carmo 15/03/2019
José Paulo do Carmo

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Quem quer casar com um patego?

Os novos reality shows da SIC e da TVI - “Quem Quer Casar com o Agricultor?” e “Quem Quer Casar com o Meu Filho?”- trazem-nos mais duas autênticas pérolas de mau gosto a juntar ao cenário decadente a que temos assistido nos últimos anos em Portugal e que leva cada vez mais pessoas a optar por desligar a televisão ou adquirir pacotes de canais internacionais como a Netflix. De facto, quando achamos que não podemos bater mais fundo, alguém com a arte de garimpar sabiamente nos demonstra que estamos enganados. Agora, para cúmulo da brejeirice, aparecem-nos dois formatos rebuscados que fazem corar de vergonha o “Big Brother” ou “A Casa dos Segredos”. 

O primeiro vai desencantar agricultores desesperados que anseiam por alguém “que preencha um lugar no seu coração”. Alguns deles mal sabem falar (as suas palavras são frequentemente legendadas), enquanto do outro lado temos algumas senhoras desesperadas por arranjar um “seguro de vida”, misturadas com outras que saltitam de programa em programa à procura da fama. Umas dizem que percebem pouco de agricultura e que a única coisa que sabem ver “é se os tomates estão maduros”; outras só tiveram contacto com “gatos e cachorros”, tudo isto num misto de guerrilha e caça em que as mulheres se digladiam para conseguir o seu tão ansiado troféu.

No segundo, a palhaçada sobe de tom. Meninos acompanhados pelas suas mamãs e que nunca conseguiram sair debaixo das suas saias procuram a emancipação colados a elas e sujeitos às suas aprovações. Um rol de estupidez que nos faz sentir vergonha alheia. Eles sentam-se num sofá bem ao lado das suas progenitoras para que nada lhes escape, e as meninas, ávidas por qualquer coisa que eu ainda não consegui perceber, vão entrando. O formato mais parece uma mostra de gado numa qualquer feira animal, em que eles vão analisando o porte e a capacidade de reprodução para a seleção final. As mães vão perguntando se elas sabem cozinhar, porque eles são homens de alimento, e se sabem cuidar da casa - e os meninos afoitos vão-se babando. Se são altas, não há problema porque “na horizontal são todas do mesmo tamanho”, e quando uma delas cumprimenta a mãe do filho dizendo “ prazer”, o machão do filhinho pisca o olho para a mãe e, com o seu conluio, responde: “Isso do prazer, logo se vê”.

Assim vai a nossa televisão, 48 horas depois do Dia Internacional da Mulher e dos constantes apelos contra a misoginia e contra a violência doméstica, o que prova que parte da nossa comunicação social, sempre tão afoita em criticar e apontar o dedo, se está completamente a borrifar para a causa quando em causa estão audiências. É o cair da máscara de uma indústria que se rege única e exclusivamente por números e que não olha a meios para os atingir. Os programas, só por si, são de péssima qualidade, mal desenhados e com atores horríveis, mas pior do que isso tudo é mesmo o papel em que colocam as mulheres. Aqui surgem como sopeiras submissas que se colocam numa qualquer montra de uma loja ou de um talho, prontas para serem escolhidas para a matança de um qualquer comensal. É degradante e decadente ver ao ponto a que isto chegou sem que não haja o mínimo de vergonha na cara.

Acho também engraçado ver o ponto a que chegam certas mães de certas famílias na ávida tentativa de protagonismo, expondo as suas vidas e os seus filhos. Quanto aos meninos, é muito triste perderem toda a magia de conhecer uma pessoa, da troca de olhares, da insegurança de perceber se ela quer ou não, das primeiras aproximações, de toda a fase romântica que nos faz levitar, que nos deixa ansiosos mas, ao mesmo tempo, felizes e de bem com a vida. Perder isso é perder o melhor que uma relação tem para oferecer, é quebrar uma parte essencial da construção. Depois admiram-se de ver toda a gente a divorciar-se. Anda tudo à procura do mais fácil, do mais plástico e inócuo. Vidas sem qualquer interesse.

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