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9 de abril de 1962. Meio despida de madrugada num hotel mas com os rins no sítio

9 de abril de 1962. Meio despida de madrugada num hotel mas com os rins no sítio

Afonso de Melo 09/04/2019 20:47

Brigitte Bardot habitava as primeiras páginas dos jornais. Certa vez, em Florença, ficou histérica. Acusou o vizinho do quarto ao lado de lhe tentar forçar a porta. O pobre diabo foi preso gritando por inocência. Coisa que BB não tinha.

Quando, numa tarde inspirada de 1967, Serge Gainsbourg escreveu Je t’Aime... Mois non Plus estava a pensar em Brigitte Bardot. A verdade é que, nesse tempo, muitos homens pensavam em Brigitte Bardot.

Não se pode dizer, a despeito da popularidade da canção, que Serge estivesse num dos seus dias mais brilhantes. Francamente! “Je vais et je viens, entre tes reins”? Vou e venho entre os teus rins??? Que diacho! Parece uma letra dedicada a um açougueiro. Dizem que foi a própria Brigitte a pedir-lhe que escrevesse uns temas de amor, e parece-me que Gainsbourg se saiu melhor com a outra canção que escreveu logo em seguida, Bonnie and Clyde. Mas, claro, isto são meras opiniões.

Serge e Brigitte chegaram a gravar uma versão original daquela confusão renal. Diz quem a ouviu que foi “trés chaud!” Imagino. “Tu va et tu viens/ entre mes reins/ tu vas et tu viens/ entre mes reins/ et je te rejoins”, cantado em voz sexy por BB, devia ser de levantar um morto.

Longe de mim a tendência para a pudicícia. Só tenho é pouca paciência para o mau gosto. 

Nesse tempo, a boa da Brigitte (e este boa não traz consigo nenhuma malícia) estava casada com um tipo endinheirado, o alemão Gunter Sachs, que sabia francês o suficiente para não ter achado grande piada à tirada final da esposa: “Maintenant/ Viens!” Ficou bastante espinafrado com o que imaginou estar a suceder entre Bardot e Gainsbourg nos estúdios de gravação e resolveu pôr um ponto final naquela tranquibérnia de ir e vir entre rins. Proibiu a saída do single, ainda terá prometido um par de chapadas a Serge - Gunter era um excelente atleta - e mandou BB regressar ao conforto pacífico do lar mantendo a sua região renal em privado, reservando-a para ele e para quaisquer cólicas eventuais.

Já se sabe que Gainsbourg ficou destroçado. Comentou: “É uma canção pura. Uma das melhores que escrevi sobre o amor”. No ano seguinte já tinha deixado Brigitte nos confins do olvido e estava a suspirar e a gemer com Jane Birkin em tudo quanto eram rádios da Europa, Portugal à parte, já que, por cá, a música gemebunda foi absolutamente proibida.

Brigitte BB começou a sua vida no universo do espetáculo como bailarina, muitos anos antes do episódio do orgasmo renal. Em 1957, já tinha atingido a fama como atriz no filme E Deus Criou a Mulher. Poucas como ela terão encarnado a mulher na sua essência. Daí a bomba sexual não foi preciso mais do que o riscar de um fósforo. 

Os maridos sucederam-se a um ritmo alucinante e os escândalos também. Aos 18 anos estava casada com o realizador Roger Vadim. Mas frequentava o leito de Jean-Louis Trintignant, que filmou com ela em E Deus Criou a Mulher, bem como os aposentos privados do cantor Gilbert Bécaud.

Se algo não batia decididamente certo com a vida pessoal de Brigitte, isso era, sem dúvida, o sentido de recato. Habitava em permanência as primeiras páginas dos jornais. No dia 9 de abril de 1962, por exemplo, irrompeu pelos corredores de um hotel em Florença soltando gritos histéricos em trajes absolutamente menores. Ora, os trajes menores eram de somenos para uma mulher que apadrinhou o biquíni desde a sua invenção e até conseguiu levar uma reprimenda papal, diretamente vinda do Vaticano, por insistir na exibição impudente das suas voluptuosidades.

Bardot estava em Itália para filmar O Repouso do Guerreiro e acusou o seu vizinho de quarto de tentar forçar-lhe a fechadura a meio da noite. O pobre diabo tentou como pôde clamar por inocência, mas foi parar ao chilindró rodeado de carabinieri. A direção do hotel ofereceu a BB uma suíte mais discreta, mas ela recusou firmemente: “Está decorada em tons de vermelho. Iria passar a noite a sonhar com sangue”.

Foi mais ou menos por esta altura que Brigitte começou a perceber que nem todos os homens estavam dispostos a aturar-lhe o feitio caprichoso por mais loira e libidinosa que fosse e, convenhamos, até era. Vadim fartou-se; Trintignant também; Bécaud colecionava mamíferos do sexo feminino de todas as espécies; o seu segundo marido e pai do seu único filho, o ator e artista plástico Jacques Charrier, era de uma índole pouco tolerante para com invasões da sua intimidade e deixou-a autenticamente com a criança nos braços.

Ora, Brigitte não tinha braços para crianças. O miúdo, Nicolas-Jacques, não tardou a ser entregue aos avós paternos e, com os braços livres, BB pôde atirar--se para os braços do milionário Gunter, ao fim e ao cabo, personagem inicial desta pequena historieta.

Com uma muito limitada pachorra para se manter fiel, não demorou a envolver--se com outro ator, Patrick Gilles, antes de prosseguir numa vertigem amorosa que meteu ao barulho um empregado de bar chamado Christian Kalt, o proprietário de bar Luigi Rizzi, o músico Bob Zaguri, o escritor John Gilmore, os atores Warren Beaty e Laurent Vergez, o escultor Miroslav Brozek, o produtor Allain Bougrain-duBourg e Bernard d’Ormale, um assessor de Jean-Marie Le Pen, seu atual marido. Ah! E, claro, Serge Gainsbourg. Esse foi indiscutivelmente especial. “Je vais et je viens/ entre tes reins/ et je/ me retiens...” Se calhar, o único que se conteve. Ou reteve. Mais rim menos rim... 
 

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