27/5/19
 
 
Rui Patrício 10/05/2019
Rui Patrício

opiniao@newsplex.pt

Instantes eternos

A eterna busca (de várias formas) de uma tranquilidade e de um conforto uterinos, mesmo que seja por breves momentos, e mesmo que eles sejam ou venham a ser (de um jeito ou de outro) fatais. Apesar da aparente complexidade, a vida é, no essencial, afinal ou paradoxalmente, muito simples e é dominada por não mais do que meia dúzia de coisas, umas “do mal” e outras “do bem”, como diria o outro.

Um colega e amigo disse-me recentemente que sou dado a muitas associações de ideias. Outro, há mais tempo, recomendou-me um livro de David Grossman, O Mel do Leão, e fez muito bem, porque é um livro a vários títulos surpreendente, sempre pela positiva, debruçando-se – pelo menos, aparentemente – sobre o mito de Sansão. A dado momento, o autor recorda/recria o momento em que, precedendo a traição e a tragédia, Sansão repousa a cabeça no colo de Dalila e se abandona a essa doçura, encontrando ali um breve, mas eterno, momento de tranquilidade, como se – mesmo que, de seguida, tudo pudesse ser escuro, vil e/ou sangrento – aquele instante, qual regresso ao conforto uterino, pudesse resgatar, salvar ou compensar tudo.

E esse é talvez – pelo menos, na leitura que dele agora fiz; no futuro quem sabe, a água nunca corre a mesma – o momento mais importante do livro, não tanto pelas artes literárias do mesmo, mas porque isso é porventura o que de mais importante a vida tem, a eterna busca (de várias formas) de uma tranquilidade e de um conforto uterinos, mesmo que seja por breves momentos, e mesmo que eles sejam ou venham a ser (de um jeito ou de outro) fatais. Apesar da aparente complexidade, a vida é, no essencial, afinal ou paradoxalmente, muito simples e é dominada por não mais do que meia dúzia de coisas, umas “do mal” e outras “do bem”, como diria o outro. E, entre as “do bem” está a tentativa de eterno retorno ao momento individual inicial – inteiro e limpo, como as palavras de Sophia de Mello Breyner sobre um outro momento fundador, este coletivo – em que a nossa cabeça e o nosso coração repousam no conchego e na proteção uterinos, abandonados de tudo, até de nós.

E é talvez também por isso, lembrei-me logo ao correr da pena – na tal associação de ideias –, que se morre amiúde em posição fetal. Conheço, por exemplo, um caso judiciário em que uma vítima, repetidamente esfaqueada, se arrasta até à rua, escadas abaixo, e acaba, exangue, por se extinguir no passeio, em posição fetal, quem sabe se procurando, nesse último momento fatal, o regresso ao início, protegido e resgatado.

E lembrei-me também – sim, e de que maneira, mais de 20 anos volvidos, nunca mais me tinha lembrado dos detalhes dessa visão derradeira – da última vez que vi o meu avô vivo, lentamente roído pelo tumor, numa cama de hospital, mirrado, menos de um terço do homem que era (e já não o homem que fora), todo encolhido em posição fetal. Como se quisesse aninhar-se, proteger-se, esconder-se, regressar à quietude inicial, adormecer ou repousar num qualquer colo de Dalila, mesmo que para enfrentar depois a fatalidade, após um breve instante, conquanto eterno, de tranquilidade. Seria isso que ele buscava? Terá encontrado? Espero que sim. Não é o que buscamos todos? E quantas vezes encontramos? E quantas nos satisfaz? E quantas cobramos mais, e mais, ou esperamos mais e melhor, ou não reconhecemos esses instantes, e tudo isso faz com que não apreciemos e conservemos em nós, devidamente, a sua irrecuperável eternidade?

 

Escreve quinzenalmente à sexta-feira

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