27/5/19
 
 
José Paulo do Carmo 10/05/2019
José Paulo do Carmo

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Criatividade na noite

Criou-se o hábito ridículo de dar uma temática que de temático nada tem a cada noite, com nomes pomposos e argumentos de circunstância. Parece que é obrigatório existir uma razão, mesmo que ela seja enganadora, para criar a necessidade de os clientes irem

Lembro-me de quando nos aperaltávamos todos no verão para ir às grandes festas que existiam no Algarve. Sobretudo as da Casa do Castelo e do Klub. A festa árabe com grandes produções, em que ofereciam turbantes à porta e tinham tendas lá dentro que recriavam todo o ambiente, ou as famosas festas brancas em que ia tudo mas mesmo tudo a rigor. Recordo-me também em Lisboa das mágicas noites do Lux como a festa da Minissaia, da T-Shirt ou os aniversários, mas também as da Kapital como a festa espanhola, em que ofereciam leques e tinham a decoração toda preparada para nos receber como se estivéssemos em Sevilha. Nessa altura faziam-nos sonhar com o que íamos vestir e de que forma nos podíamos apresentar para brilhar e para fazermos parte do espírito, e quem não estava é que se sentia deslocado.

Há umas semanas fui a uma festa numa discoteca e, quando lá cheguei, percebi que o tema era o festival Burning Man pelos flyers que circulavam nas mesas junto ao bar. Esse era, aliás, o único sinal visível da temática escolhida. Os barmen estavam vestidos normalmente e não havia uma pessoa com dress code, e nem sequer a música tinha algo a ver com o que se passa no famoso festival do deserto americano. Hoje em dia, as casas deixaram de apostar na produção e viraram-se completamente para os RP; não querem festa, querem consumos diretos. Criou-se o hábito ridículo de dar uma temática que de temático nada tem a cada noite, com nomes pomposos e argumentos de circunstância. Parece que é obrigatório existir uma razão, mesmo que ela seja enganadora, para criar a necessidade de os clientes irem.

A verdade é que os clientes habituaram-se tanto a este engano que vão na cantiga e só escolhem o sítio para onde vão sair depois de perguntarem “o que há lá hoje?”. Os cartazes e a comunicação remetem-nos para um conteúdo mas, quando lá chegamos, é mais do mesmo. Perdeu-se, por isso, o hábito de fazer festas diferentes e descredibilizou-se os que o tentam fazer porque já ninguém está para ir a rigor ou para assumir um tema e, depois, ser o único a aparecer dessa forma. À exceção de um ou outro espaço, já ninguém vai pela música ou pela qualidade do espaço, mas sim pelos promotores, pelas ofertas e à procura das pessoas que quer encontrar. Tirar selfies a dizer que se esteve num certo sítio tornou-se mais importante do que a diversão em si, do aproveitar a noite, de dançar ao som de boa música e da qualidade do serviço e das bebidas.

No fundo, já lá vai o tempo das vacas gordas em que pouco ou nada se declarava neste negócio e, por isso, as margens eram enormes e dava para tudo. Hoje em dia, com as margens esmagadas, tenta-se diminuir os custos e optar pelo mais fácil. Até porque o metro quadrado está cada vez mais caro e é cada vez mais difícil justificar o arrendamento ou a compra de um espaço para o ter a faturar dois ou três dias por semana durante três ou quatro horas por dia. É nesse sentido que assistimos hoje a uma revolução noutros países que cá chegará também. Se a restauração já está por cá implementada, ainda não temos os exemplos de fora de espaços muito bem trabalhados para ativações de marca mas que também se transformam em incubadoras para indústrias criativas. A hotelaria é outro dos fenómenos que começam a crescer anexados a este tipo de entretenimento: espaços com festa e dormida, bem desenhados para que haja espaço para descansar e para a diversão. Também a modelação das áreas para que possam receber durante a semana exposições, palestras e empresas nas vertentes mais culturais e criativas começa a ganhar o seu espaço.
A criatividade começa a definir novos caminhos para a noite – veremos quando este tipo de inovações chegarão ao nosso país e se os intervenientes terão capacidade estratégica para o implementar da forma mais correta. Dando aos clientes o que eles querem. Experiências diferentes. Mas apostando seriamente na rentabilização efetiva dos espaços.

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