27/5/19
 
 
Estado Islâmico contra talibãs. A outra guerra do Afeganistão

Estado Islâmico contra talibãs. A outra guerra do Afeganistão

AFP Ricardo Cabral Fernandes 13/05/2019 20:02

Os talibãs e o Estado Islâmico estão, desde 2014, em guerra pelo controlo do Afeganistão. E os combates têm-se intensificado.

Aldeias disputadas, atentados bombistas, emboscadas, combates em planícies e nas montanhas. O Afeganistão vive hoje uma ‘nova’ guerra no seu território assolado por décadas de conflito, agora entre os talibãs e o Estado Islâmico. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou a vitória sobre a organização terrorista, conhecida pela sua extrema crueldade no campo de batalha, mesmo para os padrões do conflito afegão, mas a verdade é que a organização não foi derrotada. E milhares de militantes procuram novos teatros de operações onde possam criar bases e preparar atentados terroristas na Europa. O Afeganistão é um desses territórios, a par e passo com a Líbia.

Desde 2014, quando o Estado Islâmico começou a criar raízes no país, que os talibãs se veem a braços com uma guerra em duas frentes: contra as forças do governo afegão e norte-americanas e contra o Estado Islâmico. A guerra entre os mujahideen e os jihadistas do Estado Islâmico tem-se acentuado nos últimos dois anos.

Segundo os serviços de informações afegãos, o Estado Islâmico conta com entre três mil e quatro mil combatentes. Mas os militares norte-americanos calculam que sejam dois mil. Independentemente dos números, a verdade é que o Estado Islâmico não é adversário à altura dos talibãs, que possuem forças regulares na ordem dos 60 mil combatentes, além de granjearem grande apoio entre a população, o que não acontece com o Estado Islâmico. Este praticou uma série de atos de extrema violência, entre os quais atentados bombistas contra a população xiita – os militantes do EI são sunitas –, o que levou a uma enorme hostilidade por parte dos afegãos. Pelo meio, ambos são atacados ora por aviões norte-americanos ora por forças especiais – um drone dos EUA chegou inclusive a assassinar o comandante do EI no norte do país, Qari Hekmatullah, num ataque aéreo.

Apesar do número reduzido de combatentes, o EI foi visto como uma ameaça tão grande para os talibãs – é a primeira vez que a sua hegemonia é verdadeiramente contestada no Afeganistão por outro grupo militante – que estes destacaram uma unidade de forças especiais com o único objetivo de o destruir. Tem mais de mil elementos e são os mais bem treinados e com mais experiência do seu exército, além de mais bem equipados. São enviados para qualquer parte do país, enquanto o resto dos talibãs combatem outros grupos menores e as forças do governo afegão e norte-americanas. É uma guerra fluida, ora com táticas convencionais ora de guerrilha, com pequenas bolsas de resistência e altamente móvel.

Os militantes do EI odeiam os talibãs por, dizem, serem motivados não pela lei islâmica, a sharia, mas por uma visão étnica e nacionalista – os talibãs são maioritariamente pashtun – de conquista do Estado afegão. Por sua vez, o EI quer criar um califado mundial que integre toda a comunidade islâmica, a umma, e não apenas uma parcela dela, limitada por fronteiras nacionais. O falhanço do Estado afegão no controlo do seu território, cuja maior parte está hoje nas mãos dos talibãs, 18 anos depois de serem afastados do poder pela invasão dos EUA em 2001, permitiu a implantação do EI, a que se juntou o descontentamento de muitos talibãs para com o seu líder, Mohammed Omar, entretanto morto, virando-lhe costas – é comum os comandantes virarem de lado conforme o contexto e os seus interesses no conflito afegão. Além disso, o EI também critica a aliança dos talibãs com os serviços secretos paquistaneses, que vê como inimigos por formalmente serem aliados de Washington. O ódio é tão grande para com os talibãs que militantes do EI decapitaram 15 mujahideens pouco depois de se ter implantado no país. Foi mais um pecado capital entre tantos outros na perspetiva dos talibãs.

Ataque cirúrgico para decapitar a liderança talibã Os militantes do EI usam táticas de guerra convencional, como se de um exército regular se tratasse, enquanto os talibãs usam táticas de guerrilha, seja urbana ou de montanha. Os talibãs fizeram-no contra os soviéticos e repetiram-no contra os norte-americanos, mas contra o EI usam táticas mais convencionais por a relação de forças ser completamente assimétrica a seu favor – ao contrário dos soviéticos e dos norte-americanos, o EI não tem artilharia, tanques e apoio aéreo nas suas operações.

A guerra entre as duas organizações escalou ao ponto de o Estado Islâmico avançar, no final de abril, com uma ofensiva nas províncias de Nangarhar e de Kunar, conquistando seis aldeias aos talibãs e obrigando à deslocação de mais de 500 famílias. Nangarhar, na fronteira com o Paquistão, tem sido um baluarte dos Estado Islâmico, mas os talibãs continuavam a controlar algumas aldeias. Em dois meses de combates aqui e ali, as baixas de ambos os lados ultrapassaram uma centena.

“O Estado Islâmico capturou seis aldeias nos distritos de Khogyani e Shirzad, mas os combates não pararam”, explicou Sohrab Qaderi, membro do conselho provincial de Nagarhar, à Reuters. Em resposta, os talibãs tentaram reconquistar as aldeias e intensos combates foram o resultado do choque entre os militantes.

Em meados de julho de 2018, dois militantes do EI atacaram a casa de um comandante dos talibãs na província de Sal-e-Pul durante uma cerimónia, matando 15 pessoas e ferindo outras 15. Foi um ataque cirúrgico para decapitar a liderança talibã nessa parte do Afeganistão. E, poucas semanas depois, em agosto, os talibãs vingaram-se perseguindo durante dois dias mais de 300 militantes do EI no norte do país. Sem alternativa, mais de 200 combatentes da organização renderam-se às forças do governo afegão. Se não o fizessem, seriam capturados pelos talibãs. Nos combates, 40 jihadistas foram mortos pelos talibãs e o norte foi libertado desta ameaça. “Depois da rendição de mais de 200 daeshis no distrito de Darzab na noite passada, o Daesh foi eliminado no norte”, disse o major Ahmad Jawid Salim, dos talibãs, ao New York Times.

Todavia, nem todos os jihadistas do EI ficaram nas mãos do governo afegão. Pelo menos 128 foram capturados pelos talibãs, segundo Zabihullah Mujahid, porta-voz dos mujahideen, em declarações ao mesmo jornal norte-americano, e foram julgados pelos tribunais dos talibãs, porventura condenados à morte. “Vai haver investigações e os nossos tribunais militares vão decidir sobre os seus destinos”, disse Mujahid na altura.

O combate entre estas duas organizações foi bem-vindo pelo comandante das tropas norte-americanas no Afeganistão, general John Nicholson. “Estamos a avançar contra o EI. E notámos que os talibãs também o estão a combater, e nós encorajamo-lo por o EI precisar de ser destruído”, disse o general numa conferência de imprensa em julho de 2018.

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×