27/5/19
 
 
António Cluny 14/05/2019
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

Quem dá e tira vai para o inferno

O problema da crise é, precisamente, o da interrupção do processo difícil da afirmação do princípio da esperança.

“Quem dá e tira vai para o inferno!”, costumávamos gritar quando pequenos, brincando e correndo nos recreios da escola, aos que nos davam um qualquer cromo ou um caramelo, por exemplo, e depois se arrependiam e queriam de novo ficar com o que haviam ofertado.

A recente crise política tem algo disso, desse jogo de prometer, dar e tirar.

Só que, hoje, já ninguém interpela ou faz chacota com quem o faz; mas talvez devesse.

O pior de tudo nem é tanto – embora seja muito e importante para muitas pessoas – o que se deu a quem era de direito, o que em seguida se lhe tirou indevidamente, o que depois se prometeu conceder de novo e o que, finalmente, se sentenciou que nunca mais se lhe devolveria.

A questão mais grave nem sequer é, de facto, o que em concreto se nega volver a dar agora, mas principalmente o que com tal afirmação definitiva se atinge: o princípio da esperança.

Não, não falo da confiança – essa perde-se e, haja paciência, pode recuperar-se mais tarde –, falo mesmo da esperança.

O que distingue uma sociedade progressiva de uma outra bloqueada no passado e sem horizontes é que a primeira aposta sempre num projeto de futuro, num alento de justiça.

Ora, isso não se compadece com negativas perentórias e impossíveis irrevogáveis.

Revi recentemente, em sessão contínua, a magnífica obra de Bertolucci Novecento.

Nesses dois filmes – que são um só, afinal – fixa-se muito bem como, nos momentos mais negros da história italiana, houve sempre quem fosse capaz de alimentar a esperança de um povo – povo que, por isso, soube lançar para trás das costas todos os males que lhe eram impostos e seguir em frente, mesmo que arrostando com as maiores dificuldades, brutalidades e inúmeros e horripilantes crimes.

Era o princípio da esperança que funcionava e que acabou por levar de vencidos o mal e a injustiça que, durante anos, fustigaram aqueles camponeses que Bertolucci tão bem retrata: nos momentos de trabalho e de fúria, e nos de festa, amor e dança coletiva.

O problema da crise não é tanto o da solução melhor, ou pior, que ela teve ou podia ter tido: é precisamente o da interrupção brusca do processo árduo de reafirmação do princípio da esperança coletiva que um diálogo duro, mas persistente e responsável, permitia acalentar.

Recuperar esse alento em direção a uma ideia de justiça pode agora, depois de tudo, parecer mais difícil, mas é ainda essencial: sem ele, submetidas apenas ao binómio estéril dos possíveis/impossíveis, as sociedades e as gerações mais novas não se movem em direção a um futuro que só o é, precisamente, se for de esperança no que é justo.

No irremediável nunca não há – e jamais haverá – futuro.

Ou, porventura, há: mas é negro como as nuvens que voltam a enlear tanta gente na Europa.

Por isso, o único inferno a que verdadeiramente se condenavam os que haviam dado e depois se arrependiam de o ter feito é, e foi sempre, o da privação da esperança.

A esperança tirada aos outros e que, por tal razão, sonegavam a si próprios.

No infernal “não há alternativa!” – que alguém gostava tanto de dizer, como se atirasse uma pedra fatal – o que se procurava negar, brutalmente, mas sempre sem verdadeiro sucesso, era o sonho dos que se moviam orientados pela esperança.

 

Escreve à terça-feira

 

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