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Carlos Carreiras 15/05/2019
Carlos Carreiras

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Cascais: abrir caminho para a mobilidade gratuita

A mobilidade urbana é uma cadeia de valor enorme, capaz de distribuir benefícios horizontalmente por toda a sociedade e por todos os setores de atividade.

A tecnologia mudou definitivamente a forma como encaramos a mobilidade nas nossas cidades. Carros elétricos e autocarros autónomos; car-sharing e bike-sharing; conectividade e internet das coisas; trotinetes e bicicletas, mais táxis e todas as outras plataformas de mobilidade partilhada dependentes do smartphone. Isto não é o futuro, é o presente.

A aceitação destas tecnologias é um indicador poderoso do processo de alteração de mentalidades em curso.

Poucos disputam a necessidade de quebrarmos a dependência dos combustíveis fósseis.

A maioria exige a adoção de respostas ambientalmente sustentáveis.

E cada vez mais olha para o automóvel como um passivo.

Às cidades cabe a tarefa de encontrar respostas a estes desafios, fazendo o melhor uso possível da tecnologia e colocando-a ao serviço dos cidadãos no sentido de conferir graus de liberdade e de coesão territorial crescentes.

As novas soluções de mobilidade urbana, exponenciadas pela tecnologia, são uma megatendência do séc. xxi. Com impactos económicos, sociais e urbanos brutais. Estudos de consultoras apontam para ganhos de pelo menos 600 mil milhões de dólares na economia mundial que advêm, sobretudo, da disrupção tecnológica, da redução da poluição, do aumento da segurança rodoviária, das ligações exponenciais de conectividade e dos ganhos em tempo para famílias e empresas.

A mobilidade urbana é uma cadeia de valor enorme, capaz de distribuir benefícios horizontalmente por toda a sociedade e por todos os setores de atividade.

Quem, na gestão da urbe, não perceber isto não percebe nada das necessidades das suas comunidades.

A transição para a era da mobilidade integrada é um desafio de todas as cidades do mundo. Os municípios portugueses que queiram manter-se competitivos à escala europeia terão muito rapidamente de abraçar processos de modernização das soluções de transporte.

Cascais, município em que estou presidente de câmara há oito anos, tem tentado liderar pelo exemplo. Tem tentado abrir caminho. Mesmo sabendo que quem vai à frente corre mais riscos e pode cometer alguns erros.

Com Aveiro, e ainda antes de entrarmos no novo século, fomos pioneiros na introdução de bicicletas na rede pública de mobilidade.

Em 2016, em cima de eleições, corremos riscos de nos constituirmos como município do país a constituir-se como Autoridade de Transportes.

E em julho desse ano, na presença do Governo, é apresentada publicamente a Plataforma MoBiCascais. Que é exatamente o quê? A plataforma que reúne não apenas todos os operadores de transporte, públicos e privados, mas também toda a oferta (bicicleta, estacionamento, comboio, metro, autocarro, táxi) numa única interface: o telemóvel. À época, uma revolução colossal que levou o secretário de Estado do Ambiente, o socialista José Mendes, a considerar o MobiCascais nada menos do que “emblemático” para o país.

A tecnologia é importante para criar soluções. Mas ela não serve de nada per se. Tem de estar ao serviço das pessoas e, sobretudo, de uma ideia de coesão territorial.

É por isso que em 2017 criámos as primeiras carreiras gratuitas para jovens até aos 14 anos (entretanto alargadas até aos 16), bonificamos os seniores (com valores muito reduzidos) e lançámos os primeiros passes conjuntos a preços baixos (20 euros/mês para toda a mobilidade interna).

Esse ano não acabaria sem eu próprio, neste espaço e apoiado no sucesso desta iniciativa local, ter avançado com a ideia da criação de um passe único metropolitano com um preço até aos 30 euros – uma medida que é hoje uma feliz realidade.

Em 2018 fomos os primeiros a defender a solução de BRT (faixa dedicada para bus) na A5 como forma de ultrapassar os congestionamentos de tráfego rodoviário no eixo Cascais-Oeiras-Lisboa, uma das principais linhas demográficas, turísticas e económicas do país.

E durante estes anos todos temos tido uma posição irredutível na denúncia da degradação da Linha de Cascais e na proposta de soluções alternativas para a viabilidade do transporte público coletivo de passageiros. Propostas em relação às quais estivemos, estamos e estaremos totalmente disponíveis para colaborar. Com o ministro Pedro Nuno Santos, acreditamos que também nesta matéria há espaço, e agora vontade governativa, para fazer mais e melhor.

Em 2019 continuamos a inovar na mobilidade. Os próximos dias trarão novidades que, uma vez mais, consolidam o lugar de Cascais como laboratório das melhores soluções de mobilidade do país.

Em poucos dias entrará em ação o primeiro veículo autónomo de transporte de passageiros. Com 12 lugares, o protótipo desenvolvido para Cascais estará em testes ainda este mês em percurso dedicado, em Carcavelos.

Na última reunião de câmara foi conhecido o vencedor do concurso público internacional de Prestação de Serviço Público de Transporte Rodoviário Regular de Passageiros – uma imposição europeia à qual a Câmara de Cascais respondeu como a primeira autarquia do país a cumprir o calendário.

Sabido o resultado do concurso, feito em moldes totalmente novos – contrato vale por quilómetro percorrido e não por preço fechado em pacote, o que permite uma abordagem serviço/preço muito competitiva –, estaremos em condições de cumprir aquele que é, para nós, o maior objetivo político do próximo ano: mobilidade rodoviária interna totalmente gratuita para todos os cidadãos de Cascais.

Muitos perguntam: porquê?

Há muitos argumentos, mas um só basta para justificar a medida: porque não há verdadeira liberdade nem verdadeiras oportunidades sem uma mobilidade democrática.

Escreve à quarta-feira

 

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