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A gramática da geringonça

A gramática da geringonça

António Pinho Cardão 15/05/2019 09:32

Generalizar para depois reverter é um deveras pitoresco sentido de Estado.

O PS é o partido das reversões. Último exemplo, e nada surpreendente para quem já antes tinha revertido o socialismo, metendo-o na gaveta, é o da reversão da contagem do tempo de serviço dos professores, antes consagrada em declarações do Ministério da Educação, resoluções do Parlamento e até no articulado do Orçamento. Aliás, uma longa tradição: lembre-se também a nacionalização de vários sectores económicos, por serem estratégicos, e da sua reversão por não o serem – cervejas e saúde, mero exemplo; o ministro João Cravinho, presente numa e noutra, que o diga.

Já na forma de geringonça, PS e Governo reverteram tudo o que mexia, da TAP às concessões de transportes e, até ver, às PPP da saúde.

Este continuado modelo de governação teve outro momento fulgurante em meados da primeira década deste século. Tendo o vanguardista Ministério da Educação brindado, a título experimental e em algumas escolas, o ensino de português com uma nova gramática, o TLEBS – Terminologia Linguística do Ensino Básico e Secundário, tal gramática foi generalizada pelo Governo de Sócrates e, a seguir, suspensa pelo mesmo Governo, com uma exótica argumentação do (também actual) ministro Santos Silva: “O Governo não concorda com experiências que têm uma parte dos actuais estudantes como cobaias. Por essa razão, o Governo PS generalizou a todos os alunos a aplicação da TLEBS. Foi essa generalização que levou à suspensão...”

Generalizar para depois reverter é um deveras pitoresco sentido de Estado.

A TLEBS era mesmo uma coisa patusca que levou Miguel Sousa Tavares a utilizar a sua coluna no Expresso para filosofar sobre o futuro do seu cão face à nova terminologia: “Não sei se o meu cão ainda é cão, mas substantivo é que já não!... Pois, cão deixou de ser um mero substantivo e passou a nome comum, concreto, contável, não humano, animado, masculino do singular!...”

Mas as declarações de Santos Silva deram um renovado contributo para consolidar a gramática que tinha na reversão o seu desígnio maior e veio a ser adoptada pela geringonça.

Por isso, bem podem os professores insistir, mesmo apoiados na promoção tlebsiana do redondo artigo definido o a determinante artigo, que a contagem do tempo é que é determinante e que a contagem de tempo é uma indeterminação, que o PS, tendo já revertido a TLEBS na generalidade, reverteu também o tempo na especialidade, e não há mais tempo nenhum.

E, louvando-se ainda na TLEBS a promoção de uns tantos vocábulos (a palavra nenhum, que designa o zero e o nada, e na velha gramática era um mero pronome, para mais, indefinido, foi alcandorada à casta mais alta de quantificador universal) e a retirada a outros de supostos privilégios (o respeitável advérbio de lugar, aqui, foi despromovido a mero advérbio adjunto), também a geringonça em tudo estabeleceu uma nova hierarquia.

E assim, subindo na escala, a austeridade foi revertida em reposição de rendimentos, mesmo que estes tenham logo sido revertidos pelo quantificador universal da maior carga fiscal de sempre. E, descendo na escala, foi aclamado um absurdo igualitarismo que celebra o pequeno e médio e demoniza quem se distingue e, na área pública vai golpeando sistemas de saúde e educação privados, para que nem haja termo de comparação.

E se a gramática da TLEBS pressupunha um aparelho fonador capaz de fonar as vogais e consoantes, também a nova gramática geringôncica desenvolveu um evoluído aparelho fonador, especializado em harmonizar a diversidade dos sons e torná-los apelativos aos ouvintes.

Mas a dissonância que se vai notando leva-nos à dúvida se a geringonça não começa a reverter-se a si própria. Seguindo a história, em que os triúnviros e apêndices acabaram sempre por se liquidar mutuamente, também os senhores da geringonça, cada vez mais incapazes de acordar na gramática em que antes se entendiam, já se vão publicamente expelindo em dramáticas sessões parlamentares ou comícios eleitorais.

É mesmo a reversão que falta para uma democracia de qualidade. Com uma nova gramática em que a imagem ceda lugar a um verdeiro serviço público.

Economista e gestor, subscritor do “Manifesto: Por Uma Democracia de Qualidade”

pcardao@gmail.com

 

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