17/11/2018
 







FESTAS DE LISBOA

A FOLIA DOS SANTOS

Está tudo a postos para as festas populares e até o tempo vai melhorar nos próximos dias - ou não fosse São Pedro o homenageado em algumas localidades do país. Por agora, é a vez de Santo António invadir as ruas de Lisboa, com os arraiais e marchas do costume. Os bairros vestem-se a rigor e a venda de cerveja e sardinha dispara

TEXTOS | Edilson Coutinho, Mariana Madrinha e Sónia Peres Pinto

TURISTAS E NATIVOS A POSTOS PARA O ARRAIAL

No bairro de Alfama, em Lisboa, as pessoas espalham-se pelas ruas logo pela manhã. Embora nos últimos dias ainda não tenha havido muito movimento antes do anoitecer, Paulo Martins, garante que “desde o primeiro dia que está agarrado ao grelhador” e já por lá passaram muitas pessoas. E há quem comece cedo: já chegou a ter pedidos de sardinhas às 11h30.  

É sexta-feira à noite e dá para ter um cheirinho das festas que hoje e amanhã atingem o seu ponto alto na capital. Elsa Lopes veio da outra margem do rio Tejo para comemorar pela primeira vez o santo António em Lisboa. É comerciante e tem a barraca montada num local estratégico: mesmo no início de uma das ruas mais movimentadas do bairro e por isso acredita que os clientes chegarão até ela mais facilmente. A setubalense veio por causa da comadre, que a desafiou a juntar-se a ela, e não demonstra arrependimento. Mesmo que os turistas dominem a clientela, este ano estão à espera de muitas pessoas nas festas, “principalmente por causa do futebol”. 

Os vizinhos não são encarados como concorrentes. Por lá todos “são simpáticos”. “Não conhecíamos ninguém e todos nos ajudaram”, conta a dupla. Habituada às festas de Setúbal, Elsa constata desde já uma diferença: na sua terra, uma das tradições dos bairros era fazerem-se fogueiras no chão para o convívio, o que dificilmente verá em Lisboa.

A verdadeira festa acontece no centro do bairro de Alfama, um largo onde se concentram vários bailes, restaurantes, barracas, pessoas e muita animação.  

Numa das principais ruas do bairro, fazem-se filas para entrar nos restaurantes ao ar livre que estão sempre cheios de portugueses e turistas. O movimento começa a crescer e é com dificuldade o i conversa com um grupo de sete pessoas que veio de propósito para Lisboa comemorar o Santo António. 
Nenhum deles é de Lisboa, mas também não é a primeira vez que não resistem ao chamamento das festas.

“Há dez anos que temos vindo ao Santo António” garante Pedro Luís. Os motivos são sempre os mesmos: amigos, festa na rua, o ambiente da cidade e principalmente o bom tempo que ajuda a que a festa seja feita nesta altura. 

Pedro tem conhecidos no estrangeiro a quem já chegou a dizer que “esta é altura certa para vir a Lisboa”. O habitué do santo António afirma que as opiniões dos turistas. Quando os interlocutores são brasileiros, a comparação com o carnaval é imediata. Também é dominado pelas festas de rua e as várias freguesias que por cá organizam marchas e arraiais são associadas aos blocos que dinamizam a folia do outro lado do Atlântico.  
A festa popular que juntou os amigos de várias partes do país para uma noite de petiscos e música na capital deixa também o dono do restaurante satisfeito. Foram mais de 40 copos de cerveja que se contaram na mesa, para além da comida.

Pedro Luís quer continuar a vir à festa. Para ele, o que os santos trazem de diferente é a oportunidade de falar com toda a gente: “o português fica mais sociável nesta altura”.

Os amigos tiraram uma semana de férias e pretendem escolher um bairro para cada uma das noites, de forma a aproveitar melhor toda festa.

Estar num ambiente descontraído e viver um espírito de aldeia parece estranho para quem vem de fora, afinal Lisboa não deixa de ser por estes dias “uma capital europeia”. Mas é um dos motivos para a festa ser tão apreciada por portugueses e estrangeiros.

No meio da confusão das danças, vislumbra-se o humorista António Raminhos, nas gravações do mais recente programa de televisão em que assumiu a missão de só utilizar produtos 100% portugueses. Em tom de brincadeira, Raminhos já fez a sua análise: “se retirássemos tudo o que não era português dos santos, as ruas ficavam igualmente animadas, mas com menos bebedeiras e mais divertimento”, ironiza.

O que deixa o comediante mais triste são os turistas que “desvirtuam o espírito” da tradição popular. Embora as culturas não sejam muito diferentes entre os países europeus, em alguns países existem leis que proíbem os cidadãos de beberem livremente na rua. Estando em Portugal, muitos deles aproveitam para beber e esquecer as sardinhas, as danças e de tudo o resto que envolve as festas que marcam o mês de junho.

“Eu faço muitos espetáculos à noite, então quando estou no meio da confusão geralmente é em trabalho”, admite o humorista. A grande desvantagem de trabalhar com o público é que muitas vezes é abordado por pessoas que estão embriagadas, o que nos santos é um clássico.

António Raminhos nasceu em Lisboa e viveu durante algum tempo nos Olivais. Confessa que nunca teve o espírito de bairrismo, e até nunca tinha ido aos Santos, mas mal chegou aos arraiais sentiu-se logo contagiado. “Eu próprio não sou de Alfama e chego aqui e sinto que sou de Alfama”, ri-se.

Onde vive atualmente não existem santos populares. Mas também há festas e quando lá vai percorre todos as barracas à procura da sardinha portuguesa porque diz ser um grande fã do peixe. Se peixe não costuma faltar nas festas, este ano prevê que haja uma grande procura por parte de turistas.

António Raminhos no meio do arraial em Alfama, Lisboa

BICA PARA OS MAIS NOVOS

Na Bica, outro palco central das festas de Lisboa, o público é mais jovem. A música também acaba por se distanciar do cariz popular, mas não deixa de atrair centenas de pessoas que se querem divertir.

Para quem não perde os Santos as comemorações representam, sobretudo, memórias. Para lisboetas e não só, esta tradição de sair às ruas dos diversos bairros evoca os tempos em que iam com os pais e os avós ver os bailes populares.

Ana Costa é do Bombarral, tem 19 anos e estuda em Lisboa. Costuma ir a casa no fim de semana, mas este mês decidiu aproveitar as festas, até porque nunca tinha estado no Santo António. Apesar de não ter termo de comparação, está a gostar bastante. As expectativas da estudante estão altas: “acho que vai ser sempre assim”, com muita animação, alegria e música, dizia na passada sexta-feira. 

Diogo Cardoso, de Torres Vedras, também está pela primeira vez nos Santos. Demonstra estar surpreendido com a animação e não estava à espera de gostar tanto, até porque “são muitas pessoas” e o ambiente fica mais pequeno.

Daniela Martins tem 19 anos e veio de Viseu para estudar Relações Internacionais. É o primeiro ano que está nas festas e está a gostar mais do ambiente ao vivo do que o que via pela televisão. Apesar da presença na avenida esta terça-feira ser incerta, por causa dos exames da faculdade, pela amostra da última sexta-feira não se ia arrepender: “está um ambiente fantástico”.
Os estudantes garantem não ser muito fãs da sardinha, mas isso não é impedimento de jantarem ao som dos bailes. Ficam perfeitamente satisfeitos com uma bifana, que sabe melhor na festas de Santo António, confessam alguns.

Lucca Beneduce, de São Paulo, Brasil, também está em Lisboa a estudar. O rapaz de 19 anos chegou a Portugal há menos de um ano e conta que toda esta festa foi uma surpresa para ele.
Após um começo difícil em termos de adaptação, Lucca considera que estes convívios são muito bons para relaxar. Até porque também está em época de exames e, para não pensar muito nas saudades da família, sair dá algum consolo.

O estudante também sublinha que o Brasil tem algumas festas parecidas e não é só no carnaval: há arraiais e as festas juninas, precisamente a tradição de festejar os Santos que os portugueses deixaram em terras brasileiras. Lá as pessoas também bebem cerveja, dançam e cantam músicas engraçadas, descreve Lucca.

Numa mesa, ainda à espera de comida, dois casais franceses a jantar separados metem conversa. Também para os turistas é uma oportunidade de convívio.

Um dos casais estava pela primeira vez em Lisboa, e o outro, apesar de já ter estado em Portugal, também nunca tinha participado na festa de Santo António. E acabaram ali um pouco por acaso: estavam a andar pela rua e começaram a ouvir a música cada vez mais perto. Até que descobriram Alfama. Os comentários sobre a cidade são curtos, mas retratam bem a Lisboa das festas populares: muito linda, grande e divertida.  

TESTEMUNHOS

Aian Van Creij

“Nasci no Brasil e estou há um ano e meio em Portugal. No ano passado perdi os santos populares, mas este ano pretendo vir o máximo de dias possíveis. Estou em Alfama pela primeira vez por causa do meu amigo Filipe que me trouxe a conhecer esta festa maravilhosa. Estou habituada a este tipo de festa porque no Brasil também temos o São João e a única diferença é o género de música.”

Miguel Lopes

“Sou de Alfama e não é a primeira vez que faço o Santo António. Já é tradição na minha família montarmos a nossa barraca. Gosto muito disto e nos próximos anos vou continuar por cá. O público antigamente era mais portugueses, mas agora tem sido mais ingleses e franceses. Aquilo de que realmente gosto é a diversão e representar o meu bairro. Fico toda a noite e não me canso.”

Paulo Martins

“Vivo na zona da Sé de Lisboa há mais de sete anos. Estou sempre com o meu grelhador ligado e gosto muito de aqui estar. Até tiro férias do meu emprego para vir assar sardinhas desde manhã até de madrugada. Para mim esta festa representa alegria e, sobretudo, tradição. Desde pequeno ouvia falar em santo António, mas só agora é que sei o que realmente significa o bairrismo que sinto.”

Turistas

“Somos todos de Berlim, mas conhecemo-nos em Alfama. Estávamos a passear pela festa e ouvimos alguém a falar a mesma língua. Foi uma surpresa para nós encontrar as ruas cheias de pessoas, músicas e enfeites. Achámos a comida cara, mas estava tudo muito bom e vamos continuar a ir aos Santos nos próximos dias. Também queremos conhecer outros pontos da cidade.”

Estudantes

“Somos todos de diferentes zonas do país e estamos a estudar na capital portuguesa. Em época de exames, os Santos Populares são a melhor descontração que encontramos no centro da cidade. Estamos a gostar muito e queremos que continue sempre animado. Gostamos de vir para a Bica porque fica mais próximo do Bairro Alto.”

Hilda Esperança

“Tenho 60 anos e há três que faço parte das festas populares de Santo António. Este ano está a ser bom, mas têm vindo cá muitos turistas. Ainda é incerto fazer um balanço antes do final dos arraiais, mas até agora tem sido positivo. No meu grelhador não vendo só sardinhas, tenho também chouriço, que é muito procurado por todos os portugueses e turistas.” 

HORA DO ARRAIAL

SAIBA ONDE PODE BAILAR ATÉ DE MANHÃ

O i fez um roteiro dos arraiais para a noite que é considerada “a mais longa da cidade”. E porque ela movimenta milhões de pessoas, a PSP apostou num reforço policial, enquanto o Metro e a Carris vão funcionar de madrugada
O cheiro a manjerico e a sardinha assada invade a cidade de Lisboa. Há arraiais em cada praça e marchas populares a descer a Avenida da Liberdade na véspera de Santo António – um dos eventos mais populares da cidade, que arrasta multidões até à capital. Este ano não é diferente e, por isso, não faltam iniciativas e eventos para manter a tradição. Aos locais habituais – como Alfama, Bica, Graça e Mouraria – juntam-se outros mais alternativos e provavelmente menos confusos para comemorar esta noite. Por isso apontamos todos os locais que precisa de saber para aproveitar o melhor das festas.

TRÂNSITO CORTADO

Por ser já considerada a noite mais longa da cidade, prepare-se para alguns constrangimentos. O centro de Lisboa vai estar cortado ao trânsito a partir do final do dia de hoje e “várias dezenas” de polícias vão reforçar a segurança das ruas da capital. O subintendente Paulo Flor referiu que o reforço policial vai ser sobretudo “para as zonas mais históricas” da cidade, acrescentando que, face aos condicionamentos de trânsito, a polícia não podia recorrer “exclusivamente” a carrinhas e carros de patrulha.

Desta forma, vão ser destacadas “várias equipas em vários pontos estratégicos”, junto aos bairros onde decorrem os arraiais, e que “vão estar reforçadas com equipas de intervenção rápida e de prevenção de reação imediata” e também com o corpo de intervenção da PSP.

Já como medidas de segurança adicionais, a polícia vai colocar “carris antiveículos”, para impedir a passagem de carros, e “ouriços metálicos” em alguns dos “pontos de cortes de trânsito” onde se espera “um grande aglomerado de pessoas”, como o Marquês de Pombal e o Rossio.

A PSP avisou ainda que vai haver um “reforço quer na entrada, quer na saída” da cidade e que, por uma “questão de prevenção, na madrugada de 13 de junho é natural que, em percursos feitos para sair de Lisboa,” haja fiscalização de trânsito.

REFORÇO DE TRANSPORTES PÚBLICOS

Tal como aconteceu no ano passado, o Metropolitano de Lisboa vai ter comboios de seis carruagens a circular durante 24 horas ininterruptamente e com tempos de espera mais curtos. Mas nem todas as estações estarão abertas fora do horário de normal funcionamento (das 6h30 à 1h00). 

Na Linha Azul, as estações da Reboleira, Amadora Este, Alfornelos, Pontinha, Alto dos Moinhos, Laranjeiras, Parque e Avenida estarão encerradas. Na Linha Amarela, as estações da Ameixoeira, Quinta das Conchas, Cidade Universitária e Picoas vão estar de portas fechadas. Na Linha Verde só não vão funcionar as estações dos Anjos e Intendente. Na Vermelha só vão estar abertas sete estações: Aeroporto, Moscavide, Oriente, Chelas, Alameda, Saldanha e São Sebastião.

Também as carreiras da Carris que circulam durante o período noturno vão ser reforçadas, principalmente nas zonas não cobertas na totalidade pelo metro: carreira 201 Cais do Sodré – Linda-a-Velha e 210 Cais do Sodré – Oriente. Já a CP tem uma greve marcada para este dia: prepare-se para alguns constrangimentos se pretender entrar ou sair da cidade de comboio.

SANTO ANTÓNIO

O NOVO PERFUME DAS FESTAS POPULARES NASCE EM MARVILA

Os grupos que desfilam na Avenida da Liberdade preparam-se com vários meses de antecedência para a grande noite de Santo António. O i acompanhou um dos ensaios da marcha de Marvila, o bairro onde fica a redação 
Maria Santos tem 54 anos e nasceu em Marvila. Por lá permanece até hoje e tem muito orgulho no seu bairro. Em 1980 entrou na marcha e desde então nunca mais a largou, também pelo espírito bairrista. “Há muitas pessoas novas que entraram por causa do namorado ou de um amigo”, mas “acabam por se afeiçoar e ficam”, confessa.

Para a marchante mais antiga do grupo, explicar a importância de todo este espetáculo é fácil: orgulho e vaidade é o que sente ao descer a Avenida da Liberdade. Ainda assim, Maria preferia como as coisas eram antigamente. “Primeiro íamos à avenida e depois ao pavilhão.” Aliás, brinca, “costumava dizer que a avenida era a nossa cédula pessoal, onde tínhamos só o nome e o nascimento. Depois, no pavilhão, apresentávamos tudo aquilo que tínhamos e era o nosso B.I”. Hoje, as marchas desfilam primeiro no Altice Arena e só depois são postas à prova no coração da cidade.

Telmo Cardoso é o concorrente mais novo. Tem 13 anos e participa na marcha Marvila Kids desde que se lembra. Começou como mascote e passou para marchante logo depois. É filho do coordenador e o resto da família também está presente na marcha. Este é o primeiro ano que Telmo vai desfilar na Avenida da Liberdade e assegura conhecer a importância de marchar em frente às centenas de espetadores.

O tema da marcha é sempre o mais importante. Só quando está decidido é que se pode começar a trabalhar na coreografia, nos adereços, nas roupas e na letra da música. Os marvilenses garantem que as propostas passam sempre pela presidência da coletividade, mas qualquer pessoa pode apresentar um tema. Este ano, a escolha foi o perfume de Santo António, que não tem segredo para quem é um habitué das festas. A letra diz tudo: manjerico, hortelã e sardinhas são alguns dos aromas incontornáveis da rainha das festas de Lisboa.

Este ano, Marvila contou com mulheres de sobra para duas edições. Mas os homens também comparecem à chamada e alguns também ficaram de fora. Marco Cardoso, coordenador da marcha, explica que as inscrições arrancam no início do ano. Qualquer pessoa pode participar, mas existem requisitos: é necessário carisma popular e gostar dos arraiais de Santo António. Quando há muitas inscrições, os ensaiadores têm de fazer um casting para escolher quem tem mais jeito para a dança.
Mariana Luís e Pedro Borralho, ambos bailarinos, são os ensaiadores deste ano. No total são feitos seis ensaios para a Avenida da Liberdade. Assim têm tempo de fazer uma mudança das coreografias do pavilhão, que recebeu as marchas no início do mês.

A única queixa dos profissionais da dança é a falta de rigor. Reconhecem, no entanto, que não podem exigir demasiado de pessoas amadoras e, neste caso específico, a paixão acaba por ajudar a superar todos os problemas. Pedro Borralho chega mesmo a dizer que muitas vezes aprendem muito com todos eles. 

O bairro está na moda, mas não têm conseguido descolar na tabela dos resultados, o que não deixa ninguém contente no coletivo de Marvila. Em 2017 ficaram em 15.o lugar, em 2016 em 9.o e em 2015 também ocupou a 9.a posição. “Por vezes gostava que o júri me explicasse a mim qual é o conceito que eles têm para votarem numa marcha que tem de tudo menos popular”, contesta Maria Santos, lamentando que nos últimos anos se aposte mais em espetáculo e não em manter as tradições bairristas.

O conceito perde-se, completa o coordenador da marcha. “Podemos ter o melhor trabalho do mundo, mas se o júri não quiser...”

O desfile das marchas populares acontece esta terça-feira, 12 de junho, às 21h, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e prolonga-se até à meia-noite.

CORRIDA ÀS SARDINHAS E À CERVEJA FRESQUINHA

A sardinha é a rainha dos Santos Populares e, a par do aumento da procura, também se verifica nesta altura uma subida dos preços. Nos arraiais já há quem cobre cinco euros por uma sardinha no pão. Pescadores dizem que limitações da pesca também contribuíram para este aumento dos valores mas garantem que este peixe não irá faltar nas festividades

Sardinhas é sinónimo de Santos Populares e, por isso, é natural que nesta altura não só o consumo aumente como também os preços disparem. Este cenário repete-se todos os anos, mas nos últimos tem ganho novos contornos com as limitações à pesca, garante ao i João Almeida, da Federação dos Sindicatos do Setor da Pesca (FSSP).

“Os preços sempre aumentaram nesta altura porque a procura é sempre muito elevada, mas se há uns anos atrás era possível duplicar a quantidade que era pescada para responder às necessidades, atualmente não é possível. A lei da oferta e da procura leva a este tipo de situações”, salienta.

A verdade é que, por vezes, também os preços que são praticados nas docas mais do duplicam nesta altura. E João Almeida dá exemplos: até aqui, um cabaz (22,5 quilos) tem sido vendido por 25 euros mas, ontem, esse mesmo cabaz já foi comercializado por 52 euros. E a tendência é para manter estes preços pelo menos até ao final do mês.

A limitação da pesca – até 31 de julho, os pescadores poderão capturar quase cinco mil toneladas, com limites diários – e o aumento da procura, aliados ao aumento da qualidade, já que no entender do responsável, a sardinha “já está boa para consumo, longe da sua fase seca”, levam a uma maior pressão dos preços.

E consoante o arraial escolhido, os valores por sardinha podem variar entre dois e quatro euros. Mas o i sabe que há casos em que uma sardinha no pão chega a atingir os cinco euros em Alfama.

Ainda assim, os responsáveis do setor garantem que este peixe não irá faltar nas festividades. “O nosso objetivo foi concentrar a nossa atividade nos meses de junho e julho, quando há uma grande procura de sardinha, pois não queríamos que faltasse sardinha nessa altura”, esclarece.

No entanto, João Almeida lembra que, mesmo quando deixarem de existir estas restrições, a oferta não consegue satisfazer as necessidades da procura, nomeadamente da indústria conserveira, que necessita de 30 mil a 35 mil toneladas. 

E, como solução, há que recorrer à importação. “Criou-se um alarmismo que não é benéfico para nenhuma atividade”, afirma.

Portugal é o quarto país fornecedor de sardinha do mercado nacional, apesar de ter o maior mar da Europa.

À frente surgem Espanha, Marrocos e França. E os números falam por si: para combater a falta de sardinhas tem vindo a ser necessário recorrer à importação e, por isso mesmo, mais de 60% da sardinha consumida em Portugal – não só à mesa, mas também nas fábricas de conservas – é importada e a maioria que chega ao nosso país é congelada.

Espanha destacou-se como o principal fornecedor de sardinha fresca no ano passado – sempre mais de 98% do valor total importado. Na sardinha congelada, Espanha está também em primeiro lugar, representando 69,9% do valor total das importações, enquanto Marrocos ocupa a segunda posição, com um peso de 23,2%.

Peso no consumo Mas não é só a sardinha a rainha da festa. Também o consumo de cerveja aumenta nesta altura do ano, como garantem ao i as cervejeiras. A dona da cerveja Sagres garante que só o mês de junho representa 10% do consumo total do ano, pelo menos, tendo em conta os números verificados no ano passado. “Os Santos Populares ajudam às vendas do mês de junho, nomeadamente se estiver calor e sem vento, o que, infelizmente, este ano não tem sido o caso”, revela Nuno Pinto de Magalhães, diretor de comunicação e relações institucionais da Sociedade Central de Cervejas.

E face a este aumento, o responsável admite que existe um reforço na distribuição, nomeadamente tendo em conta as restrições de trânsito nas zonas históricas da cidade, afastando, no entanto, eventuais quebras de stock da Sagres.

“Não existirão certamente ruturas de stock, embora seja uma altura de complexidade agravada, quer ao nível de disponibilidade de equipamentos – máquinas de tirar cerveja à pressão – quer de entregas”, diz ao i.

Também o Super Bock Group garante que, “por norma, esta é uma altura em que o consumo de cerveja aumenta naturalmente.

Os fatores são diversos e as festas são sempre uma categoria que contribui ativamente para o consumo, pois privilegiam os momentos de convívio entre amigos”, diz fonte da cervejeira.

No entanto, segundo a mesma, não é possível quantificar o consumo só nesta altura, uma vez que há outros fatores que fazem crescer o consumo, como é o caso do verão, “uma altura muito propícia ao consumo de cerveja”. 

Aliás, por norma, os quatro meses de verão – de junho a setembro – representam cerca de 60% das vendas anuais de cerveja, e as condições climatéricas, calor e pouco vento, são determinantes para uma boa época de vendas.

Já em relação aos valores que são cobrados aos clientes nesta altura – nos arraiais, uma imperial ronda os 1,5 euros –, a opinião é unânime: “Não nos compete a nós fixar os valores de venda ao consumidor. As regras de mercado ditam que os nossos clientes fixam os valores de venda aos consumidores na sua livre política de preços.”

E ao contrário do que tinha ocorrido em anos anteriores – em que o consumo per capita de cerveja tinha vindo a diminuir de ano para ano e, em 2015, fixou-se nos 46 hectolitros, o valor mais baixo dos últimos 12 anos –, no ano passado assistiu-se um aumento do consumo.

De acordo com os Cervejeiros de Portugal, nova denominação da APCV – Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja, o consumo de cerveja em Portugal cresceu 8% em 2017, atingindo os 51 hectolitros.

“Os resultados de 2017 demonstraram que este é um setor em permanente renovação, bem patente na proliferação de cada vez mais empresas cervejeiras e microcervejeiras a lançar novos tipos de cervejas”, salienta. 

SANTOS

BREVE HISTÓRIA DOS PADROEIROS DAS CIDADES

Para muitos, não é novidade. Outros serão, porventura, apanhados de surpresa: Santo António, o santo pelo qual Lisboa sai à rua na noite de hoje (e, cada vez mais, nas restantes noites juninas), não é o padroeiro da cidade. São Vicente é, desde 1173, o santo patrono de Lisboa, obra do primeiro rei português, D. Afonso Henriques, que ordenou que as relíquias do mártir Vicente – que viveu no séc. iii – fossem trazidas para a capital. As relíquias lá chegaram de barco, vigiadas por um bando de corvos, que acabaram por se tornar um dos símbolos da iconografia alfacinha e até fazem parte do brasão da cidade.

Contudo, o santo casamenteiro acabou por lhe tomar as vezes. Nascido a 15 de agosto de 1195, em Lisboa, Santo António depressa reclamou para si o carinho das gentes. Morreu a 13 de junho de 1231, em Pádua, e a data do seu falecimento é hoje vivamente celebrada em várias partes do mundo. Por isso, e dado o vigor da festa, Alberto Júlio Silva, autor do livro “Os Nossos Santos e Beatos e Outros Santos que Portugal Adotou” [ed. A Esfera dos Livros] arrumou assim a coisa: «Santo António é o padroeiro da cidade de Lisboa – tanto que dia 13 de junho é feriado em Lisboa –, S. Vicente é padroeiro do Patriarcado». E em Coimbra também fez das suas. Embora a padroeira seja a Rainha Santa Isabel (o dia da cidade, 4 de julho, corresponde à morte da monarca, em 1336), esta é outra das cidades sob forte influência antoniana. Como lembra o autor, esta é, a par de Lisboa, a única cidade portuguesa onde o santo viveu – e foi até em Coimbra que contactou pela primeira vez com os franciscanos, ficando tão impressionado com os votos de pobreza que “em 1220 abandonou a sua primitiva ordem – os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho – e ingressou na Ordem Franciscana”. O dia 13 de junho é ainda feriado em mais duas mãos-cheias de cidades portuguesas espalhadas de norte a sul do país, desde Vila Real a Reguengos de Monsaraz.

Mas estas não são as únicas cidades onde o padroeiro não é o santo mais acarinhado – ao ponto de merecer uma dedicada festa, oferta dos populares. Em Évora, por exemplo, o padroeiro oficial da cidade é São Pedro, mas a festa popular com mais destaque desta capital alentejana é mesmo a feira de São João. Aproveitemos a deixa para rumar ao Porto, e aqui não há que enganar. Não há nenhum que faça sombra a São João e à sua festa, celebrada na noite de 23 para 24 de junho. No Brasil, esta também é uma das datas celebradas que, a par dos dias dedicados a São Pedro e a São Paulo, se englobam naquilo a que o país-irmão abrevia para “Festas Juninas”. Em Aveiro, são os santos da casa a fazer milagres. Neste caso, uma beata: falamos de Santa Joana, princesa de Portugal, que recusou o casamento para ingressar num convento dominicano. Morreu a 12 de maio de 1490, dia em que a cidade celebra o feriado municipal.

Noutras cidades, e quando não há um santo padroeiro especificamente ligado à terra, foram escolhidos santos mais democráticos – isto é, que pertençam ao “núcleo duro” de santos da Igreja. Exemplo disso é São José (19 de março), o padroeiro de Santarém e Beja, embora nesta última o feriado municipal corresponda à Quinta-Feira de Ascensão. Também na Guarda sucede algo semelhante: a padroeira é Nossa Senhora da Assunção, mas o dia da cidade é 27 de novembro, data em que D. Sancho i entregou a carta de foral ao município. Em Leiria, idem: o feriado, 22 de maio, corresponde ao dia de elevação a cidade, e a padroeira é Nossa Senhora da Encarnação. O Funchal, que tem como patrono São Tiago Menor, também comemora o feriado municipal a 7 de setembro, dia em que foi elevado a cidade.

Já Setúbal também tem um patrono de peso, São Francisco Xavier, mas que foi destronado pela poesia: o feriado da cidade comemora-se a 15 de setembro, data de nascimento de Bocage. Continuando a descer, São Vicente é o patrono do Algarve, mas Faro está sob a proteção de S. Tomás de Aquino.

E o padroeiro do país será o “açambarcador” Santo António? Nem por isso: a proteção lusa cabe a Nossa Senhora da Conceição.

Santos e padroeiros à parte, junho é mesmo o mês de muitos deles. No mapa reunimos os santos padroeiros de cada capital de distrito. Agora, siga a romaria.

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