19/11/2018
 

SÓNIA MATIAS

“É IMPOSSÍVEL ACABAREM COM A FESTA BRAVA NO NOSSO PAÍS”

Mobirise

Sónia Matias é uma das cavaleiras mais populares no meio da tauromaquia e foi a primeira mulher a tornar-se profissional. Nasceu em Lisboa e não tem familiares ligados a este meio, mas desde pequena que quer ser toureira. As muitas particularidades de Sónia Matias foram o pretexto para uma conversa, na sua quinta, em Samora Correia, sobre um dos espetáculos mais polémicos do país

TEXTO | Luís Claro
FOTOGRAFIAS | Bruno Gonçalves

Os seus pais não tinham nenhuma ligação à tauromaquia. Como reagiram quando lhes disse que queria ser toureira?

É giro falar do passado, porque me recordo como se tivesse sido ontem. Ficaram arreliados. Ficaram arreliados e preocupados, porque achavam que era uma profissão extremamente perigosa e não tínhamos nada a ver com esta área. Não tínhamos instalações, não tínhamos cavalos... Os meus pais eram apenas aficionados. Iam ao Campo Pequeno e a outras praças, mas não eram sequer fanáticos pela tauromaquia. Tentaram remover-me a ideia. Diziam-me que era perigoso e que poderia escolher muitas outras profissões. A verdade é que não valeu a pena insistirem comigo para eu retirar essa ideia da minha cabeça. Desde muito pequenina que tive este fascínio pela festa. Agora já começa a haver mais pessoas que não estão diretamente relacionadas com o meio da tauromaquia e que conseguem entrar nesta profissão. 

Foi quando viu a primeira corrida que se fascinou?

Sim. Foi por ir à praça. Era muito nova, mas senti algo especial e não tive dúvida nenhuma que era esta a profissão que queria. Recordo-me perfeitamente desse dia. Fui assistir a uma corrida e tudo me fascinou. O cavalo, o toiro, a música, o traje, o público... 

Nunca teve dúvidas?

Não. Sempre gostei muito de cavalos. A única dúvida que tive foi na licenciatura. Gostava de ter sido veterinária, mas não segui essa área e licenciei-me em Gestão do Ambiente. Desde muito pequena que tive essa convicção e, felizmente, consegui convencer toda a minha família a apoiar-me. Seria impossível sem o apoio familiar, particularmente económico, seguir esta profissão.

Quando se dá essa viragem dentro de casa e consegue convencer toda a família?

Acho que os meus pais pensaram sempre que eu ia acabar por desistir, mas isso não aconteceu. Eu compreendo muito bem o que eles sentiam. Uma menina de Lisboa... eu vivi sempre em Lisboa até terminar a faculdade.

Os colegas do liceu e da faculdade não achavam estranho?

Ficavam espantados. Recordo-me de fazer uma entrevista em miúda, no colégio Manuel Bernardes onde andei, e onde frisei que queria ser toureira. 

O que eles lhe diziam?

Os meus colegas, quando hoje falam comigo, dizem-me:“É impressionante porque tu sempre disseste que querias ser toureira e conseguiste”. Eles próprios achavam que era muito difícil, porque eu vivia em Lisboa. Não tinha cavalos, não tinha uma quinta... Felizmente que os meus pais acabaram por acreditar no meu sonho. Inicialmente comprei um cavalo na famosa Torrinha [uma herdade no concelho de Coruche], na casa do mestre David Ribeiro Teles. Para conseguir isso tive de fazer greve de fala durante uma semana. O meu pai disse-me que não me ia comprar um cavalo, porque era muito perigoso começar a tourear, mas durante uma semana não lhe falei. Foi difícil, porque eu gosto imenso de falar, mas com esta birra tremenda e com tanta insistência o meu pai concordou em comprar o primeiro cavalo para eu experimentar. 

Quantos cavalos tem agora?

Tenho 20 aqui em casa. São todos muito importantes. Não só a nível profissional e funcional, mas também a nível afetivo. Costumo dizer que as minhas amigas têm um filho ou dois e eu tenho 20 filhos. Tenho o mesmo carinho e os mesmos cuidados. 

É muito caro?

Não é barato. Nós temos todos os cuidados de higiene, alimentação, suplementos alimentares... Temos o veterinário que acompanha os cavalos e fazemos tudo para que estejam saudáveis e sejam felizes. 

O dinheiro que ganha nas corridas compensa todos esses gastos?

Essa questão é de rir. As pessoas pensam que os toureiros são ricos. Isto é única e exclusivamente por uma paixão louca. Tenho de ser muito sincera. O dinheiro que se ganha, não chega para os gastos. É essa a realidade e quem disser o contrário está a mentir. Gasta-se muito dinheiro para que os cavalos estejam bem, a alimentação, a ferração, o veterinário... Eu falo por mim, mas quase todos temos outra atividade. O que trabalhamos é só para os cavalos. Não é nada barato ter um cavalo em condições. Sai bastante caro.


A tauromaquia é um mundo de homens. Complicaram-lhe a vida?

Ao início foi difícil. Agora já não tanto. De início foi doloroso e pareceu-me muito mal. Eu não sou feminista, mas sempre defendi os mesmos direitos. Nunca quis que me facilitassem a vida, mas sei que alguns colegas, na altura, se opuseram à minha entrada pelo facto de eu ser mulher. É óbvio que isso não me agradou. Essa postura foi, felizmente, mudando ao longo dos tempos, porque, não só eu como outras colegas, demonstrámos que tínhamos a mesma dedicação, a mesma paixão... Não temos tanta força exterior, mas temos mais força interior. 

Já perdoou a esses colegas que rejeitavam tourear juntamente com a Sónia?

Perdoei, mas nessa altura zanguei-me. Recordo-me de que surgiram problemas porque havia quem não queria tourear com uma mulher. 

O seu pai acabou, mais tarde, por ser o seu empresário e assiste normalmente às corridas. Como lida ele com o risco inerente a esta profissão?

Recordo-me que, em Beja, tive uma queda enorme e quando ia na maca o meu pai ia a chorar atrás de mim. Eu disse-lhe:“Não chores, porque tu aqui não és meu pai, és meu apoderado [empresário]. Mas eu sabia que isso era impossível, porque pai é pai e tenta sempre proteger a filha. Ele sofre muito. 

Tentava aliviar esse sofrimento?

Claro. Ele ficava sempre preocupado quando os toiros eram muito grandes. Lembro-me de uma vez tourear um toiro de 735 quilos e o meu pai estava branco. Eu dizia-lhe:“Não te preocupes. O toiro só tem um bocadinho mais de tamanho. É igual aos outros”. Ele estava apavorado com medo que me acontecesse alguma coisa, porque 730 quilos a dar um toque sem dúvida que iam deixar mossa.

Como lida com o medo. Essa ousadia que apresenta na praça corresponde a alguma ausência de medo ou consegue dominá-lo?

Tenho muito respeito e tenho consciência do perigo que estou a correr. Não deixa de ser um bocadinho de medo associado ao respeito. Felizmente, quando entro na arena, não o sinto diretamente. Sinto o respeito e a consciência de que algo me pode acontecer. Sempre disse que me retirava no dia em que entrar na arena e sentir essa sensação de medo. Se um dia sentir medo ou uma sensação desconfortável retiro-me. Era quase insuportável ir fazer uma coisa que gosto tanto e começar a sentir tanto medo ao ponto de não estar confortável. Não estou nesta profissão para enriquecer, estou nesta profissão por paixão. Tenho confiança nos cavalos e acabo por nem pensar que me pode acontecer alguma coisa. Estou ali para que as coisas corram bem e se correrem mal...Também posso ir a atravessar a rua e ser atropelada ou cair das escadas e aleijar-me. A vida é um risco. 

Mas tem muitas superstições como a maior parte dos toureiros.

Muitas. Algumas foram herdadas deste meio. Grande parte dos toureiros não utiliza nada amarelo, porque dá azar. Deixo sempre a luz acesa do lugar onde me visto antes da corrida. Entro sempre com o pé direito na praça. E rezo para que as coisas corram bem, mas isso já é a parte religiosa.

Não imagina que esta atividade possa desaparecer?

Acho difícil. Não quer dizer que daqui a muitos, muitos, muitos anos não possa vir a acontecer. Não acredito que no meu tempo de vida isso aconteça. Se eu não visse gente nova a entrar nesta profissão... Vão conhecer uma menina que está aqui na minha casa a montar. Tem 19 anos e está a tirar advocacia. Não só está a tirar a licenciatura como todos os dias treina para seguir esta profissão. Há gente para renovar a festa e há aficionados jovens. É impossível acabarem com a festa brava no nosso país.

Como lida com os movimentos antitaurinos.

Respeito. Licenciei-me em gestão do ambiente e como deve imaginar havia pessoas que não eram aficionadas. Nem toda a gente pode gostar do mesmo. Mas quando estava na faculdade consegui que duas ou três colegas minhas se tornasse aficionadas. Elas diziam que não gostavam, mas nunca tinham ido. Também já me cruzei com pessoas que não gostam de corridas e conseguimos ter uma conversa minimamente aceitável. Às vezes isto torna-se quase no campo de batalha, porque quando há essas manifestações são extremamente agressivos a nível verbal. Não é esse o caminho. Há muitas coisas que me desagradam e não vou para nenhum sítio chamar nomes às pessoas. 

Sente que os políticos têm mais dificuldade em apoiar as corridas, porque não querem perder os votos de quem não gosta das touradas?

Há políticos que não têm nenhum problema em demonstrar que são aficionados, mas também já vi por aí uma cara que desapareceu quando começou a haver estas situações mais polémicas. Ia sempre às corridas e deixou de ir. Há outros políticos que continuam a ir e a demonstrar que estão ao lado da tauromaquia.


Isso é importante para vocês?

É. É triste uma pessoa deixar de ser aquilo que é só porque está a haver alguma pressão. Não nos podemos deixar intimidar. 

Vive isto 24 horas por dia.

Praticamente. Até em sonhos. Sou apaixonada pela festa desde muito pequena.

Já sofreu muitas colhidas?

Sim. Bastantes. Foram muitas, mas vou falar daquela que mais me magoou do ponto de vista afetivo. Tive uma grande queda com um cavalo que teve uma paragem cardíaca. Perdi o meu companheiro de profissão. A lesão foi muito grande, mas não tem comparação a dor física com a dor que eu senti ao perder um companheiro de que gostava tanto. Fui para o hospital a chorar, mas não chorei uma lágrima por dor. Fui todo o caminho a chorar devido à tristeza que sentia por perder o cavalo. Rasguei um músculo e tive de estar parada três meses.

Quando é apanhada pelo toiro ou se magoa na praça o que sente?

Tento voltar sempre quando há uma colhida. Cheguei a ser cosida na ambulância e a voltar para a arena. 

Os médicos não discordam de determinadas opções?

Os médicos são profissionais e querem o nosso bem, mas nós queremos normalmente antecipar a recuperação. Fazemos tudo e mais alguma coisa para recuperar, porque só temos aqueles meses para tourear. Uma vez parti a tíbia e o perónio e eram quatro meses de recuperação. Eu disse-lhe: “Isso é impossível doutor”. Fui operada de urgência e a recuperação acabou por ser um mês e meio com todos os dias de fisioterapia para poder ainda apanhar essa época e não esperar pelo novo ano. Por vezes ficamos com lesões que deviam ter sido mais bem curadas. 

Tem algumas marcas dessas lesões?

Tenho. Muitas marcas. Já magoei o joelho muitas vezes. Tenho algumas marcas nas pernas. Quando há alguma alteração no tempo ou quando faço algum esforço sinto dores e lembro-me logo que devia-me ter curado. Estou agora a pagar as consequências. 

Não sentiu mais dificuldades em enfrentar o toiro depois de ser colhida?

Acho que uma das minhas grandes particularidades é a raça que tenho. Sou destemida. Gosto de adrenalina. Não só no toureio, mas em muitas coisas na vida. Gosto de muitas coisas na vida que imponham adrenalina e até algum perigo. Felizmente até hoje não houve nenhuma colhida em que ficasse sem vontade de voltar por ter medo. Não quer dizer que isso não venha a acontecer. 

Quem vai ver corridas gosta dessa ousadia?

Sim. Julgo que transmito sempre muito essa minha garra. As pessoas dizem-me sempre que sou muito destemida e que tenho muita garra. 

Envolveu quase toda a família nesta atividade. O seu pai, a sua irmã, o seu companheiro...

O meu pai já não é o meu apoderado. Agora é o meu companheiro que é um grande profissional e um grande bandarilheiro. A minha irmã também continua a ir às corridas. Teve um bebé, mas quando pode vai comigo às corridas com o papel de moça de espadas. Ajuda-me a vestir, a marcar os hotéis... Consegui arrastar toda a família. É confortável ter a família ao meu lado. Acabamos por ser uma equipa.

Quanto ganha por cada corrida de toiros?

É melhor nem dizer. Cada zona é uma zona... A única coisa que lhe posso dizer é que não enriqueço à conta disto e tenho de pôr de outro lado para poder continuar a tourear. Neste momento é isso que se passa. 

Li que gostava de ter filhos, mas que tem adiado por causa da profissão que exerce. É verdade?

Tenho adiado, mas quando se chega quase aos quarenta anos temos aquela sensação de que há pouco tempo. Neste momento já penso nisso, porque tenho uma pessoa ao meu lado de quem gosto imenso. Ainda me falta realizar um dos meus grandes sonhos que é ir tourear ao México. 

Porquê no México?

É daquelas pancadas. Se calhar nem vou gostar tanto como idealizei, mas sempre pensei no México como um dos pontos fundamentais na minha carreira. Já fui ao Equador, Venezuela, Espanha, Estados Unidos... Felizmente que as coisas estão a acontecer para que eu possa realizar esse grande sonho da minha vida.
Há muitas diferenças entre os países, nomeadamente em relação ao público.
Adorei tourear no Venezuela. O público foi super caloroso. Nunca lá tinha toureado uma mulher e foi a loucura total. No Equador também vivi uma experiência única, porque o público estava louco. Nunca tinham visto uma senhora a tourear.

Ser mulher também é uma vantagem. Desperta alguma curiosidade nas pessoas.

É verdade. Na Venezuela estava a arranjar os cavalos cá fora, antes da corrida, e tive de entrar para dentro da praça, porque não me conseguia mexer com o cavalo. Fui quase abalroada pelo carinho das pessoas. Queriam falar comigo. Sem dúvida que nesse aspeto ajuda ser mulher. Há sítios em que as mulheres me dizem: “Mostra aí que as mulheres são as melhores”. As mulheres veem em nós toureiras a força e a capacidade de estar ao nível dos homens. Há muita gente que gosta de ir às corridas porque também está lá uma mulher.     
Foi por isso que pediu à estilista Fátima Lopes para lhe fazer uma casaca mais feminina?

Tenho uma grande admiração pela Fátima Lopes e foi um desafio. A ideia foi não fugir à casaca tradicional, mas introduzir algo feminino dentro do traje daquela época. Tinha de ser cómoda. O que lhe pedi foi uma casaca com um lado mais feminino, não fugindo à base do traje do tempo de Luís XV, e adequada a todos os movimentos que tenho de fazer a tourear. Tenho três casacas desenhadas pela Fátima. Fui a primeira mulher a tourear seis toiros sozinha [em Agosto de 2017] e pedi-lhe para me desenhar mais uma casaca para essa noite tão especial na minha vida.

Seis toiros na mesma corrida?

Sim. Foi um desafio. Aí houve um bocado de machismo. Diziam que uma mulher não era capaz de tourear seis toiros sozinha. A verdade é que consegui e o público adorou. 

Se um dia tiver filhos vai tentar que eles sigam esta profissão?

Acho que não. Se um filho meu quiser irei apoiar, mas tenho reservas por causa do perigo que existe. Acho que me iria sentir como os meus pais quando lhes disse que queria ser toureira.

Quantas corridas faz por ano?

Durante vinte anos fiz entre 40 a 50 corridas por ano. Este ano optei por reduzir e fazer só 15, porque já estou a preparar-me para ir para fora. Tenho cavalos novos e se fizer menos corridas posso estar ao meu melhor nível. 

Os cavalos não têm medo?

Os cavalos que são escolhidos para as corridas são aqueles que mostram aptidão e que não mostram medo. Seria quase impossível levar ao pé de um toiro um cavalo com medo. Um cavalo que tenha medo do toiro não resulta.

Isso exige muito treino?

Há um treino para os cavalos estarem preparados, para poderem passar ao pé do toiro e fazerem todos aqueles movimentos sem haver lesões. Treina-se os vários passes para eles conseguirem, por exemplo, desviar-se do toiro sem serem agarrados.

Os cavalos são importantes para o sucesso do cavaleiro?

São fundamentas. Têm de ser cavalos com aptidão e que não tenham medo de tourear. É muito difícil ter sucesso sem ter bons cavalos. Dependemos muito do cavalo. Se o cavalo não for bom as coisas não resultam. É sem dúvida uma peça fundamental para que as coisas corram bem.

Como define o seu estilo de tourear. Foge um bocadinho às regras estipuladas neste meio?

Sempre disse para mim mesma que não queria copiar ninguém. Não me identifico com um toureio clássico, porque sou exuberante e expressiva. Fiz o toureio que fui sentindo que devia fazer. 

A parte estética também é importante?

Sem dúvida. Dou-lhe um exemplo: as pessoas gostam de ver o cabelo solto. Se eu prendo mais o cabelo já é uma desgraça. O público gosta de se divertir e gosta que eu seja atrevida. 

Tem uma relação próxima com as pessoas que gostam de a ver tourear?

Claro. Muitas vezes fico no fim das corridas a conviver com os miúdos. Tenho tudo o que possa imaginar guardado. Desde uma pétala de uma flor a cartas ou desenhos que me oferecem. O público é fascinante. Desde as crianças às velhotas. Há sítios onde as velhotas vão só para me dar um beijo. 

Nunca teve momentos mais difíceis em que pensasse em desistir?

Não. Por enquanto não. Isto é uma paixão muito grande. Acima de tudo tenho uma grande paixão pelos cavalos. Não faria sentido a minha vida sem ter estes cavalos todos, porque me completam.

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