17/11/2018
 

VIAGEM AO INTERIOR DO PAÍS

O tema da reabilitação do interior do país promete não morrer, mas não é a primeira vez que o assunto gera debate a nível nacional e pouco tem mudado. Quem resiste aponta facilmente as vantagens e desvantagens. Nesta edição, o i reúne 20 testemunhos na primeira pessoa, exemplos de empreendedorismo que fazem a diferença, e o rumo da discussão política, que está para durar

TEXTOS | Beatriz Dias Coelho, Edilson Coutinho, Filipa Traqueia, Mariana Madrinha, Marta F. Reis, Ricardo Cabral Fernandes, Rosa Ramos e Sónia Peres Pinto

NEGÓCIOS. PELOS CAMINHOS DE PORTUGAL

Um negócio que começou em Lisboa e rumou a Fátima, outro que nasceu em Vila Real e, a contragosto, mudou-se para o Porto; mais um que nasceu no centro e de lá não sai e, finalmente, uma startup que não se vê a sair de Évora. Eis a história de quatro negócios improváveis ligadas ao interior

TEXTOS | Mariana Madrinha

Marisa Ribeirinho estava na reta final da licenciatura em Genética e Biotecnologia, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), quando a salicórnia – uma planta que cresce em estuários e salinas e que pode ser usada como substituto do sal – lhe veio parar às mãos num panfleto. E não é de somenos dizer que a sua vida mudou a partir desse momento. A partir daí, resolveu reproduzir aquela planta in vitro em laboratório – prova superada com mérito. “Consegui transformar uma praga em produto gourmet”, diz, orgulhosa. E, apesar de falarmos de uma planta marítima, a proeza aconteceu em Vila Real. 

Depressa se apercebeu do potencial negócio – afinal, a salicórnia também é conhecida por sal verde.
Desde então, sempre a partir de Vila Real, o projeto galopou. Participou em mais de dez concursos de investimento – em todos chegou à final. Agora, com um pé em Vila Real e outro no Porto, não esconde alguma tristeza. “O meu sonho era abrir um centro de produção aqui em Vila Real”, revela. O que a impede, então, de continuar por ali? “O produto também tem de ir ao encontro dos clientes, e este é um produto fresco, comprado essencialmente por chefs da área do grande Porto”, justifica. Mas há outra razão. “Temos dois investidores do Porto e um de Lisboa, que entraram com capitais próprios. Sou a CEO mas eles, que também são sócios, têm uma palavra a dizer – e um dos sócios ofereceu a sede no Porto.

Por agora, Marisa ainda está a ir a Vila Real mas vai cerca de “três vezes por semana ao Porto”. Em Lisboa, a marcha também está em andamento, com o investidor local a procurar um espaço para produzir. E o que faria a cientista e jovem empresária fixar-se no local onde tudo começou?

“Se conseguisse ficar cá [Vila Real] seríamos a primeira empresa de biotecnologia do distrito”, diz. “Claro que esta zona precisa de incentivos. A UTAD tem a única licenciatura de Genética e Biotecnologia do país, e caso houvesse oferta, a mão de obra qualificada saída da universidade não iria para fora e teria emprego direto, conseguindo assim dinamizar o tecido industrial da zona”, aponta. “No meu caso, talvez fosse importante ter tido o interesse de um investidor de cá”.

A CASCA RIJA INSTALOU-SE EM FÁTIMA E A FUNDADORA ESTÁ FELIZ: "NÃO EQUACIONO VOLTAR A LISBOA"

DE LISBOA PARA FÁTIMA

Já Patrícia Contreiras e Jorge Moedas estão a percorrer o caminho inverso. O seu negócio, a Casca Rija – uma empresa dedicada à produção de manteigas de oleaginosas – começou numa cozinha na zona da Grande Lisboa, em Odivelas, mas mudou-se para Fátima há cerca de um ano. “Começámos a ter uma dimensão tal que, quando apostámos mesmo neste caminho e nos despedimos [tanto ela como o sócio Jorge Moedas estavam nos quadros do Ikea], tivemos que ir atrás de um espaço para produzir e armazenar os produtos”, conta. E aí veio o primeiro obstáculo. “Em Lisboa e arredores só havia lojas pequenas, armazéns em más condições e era tudo caríssimo”.

Primeiro, tentaram a zona de Leiria, “já mais desenvolvida” e a Marinha Grande, mas nenhum dos negócios se concretizou e acabaram por encontrar o espaço de que precisavam em Fátima, a terra natal de Patrícia. “Nunca tinha pensado em voltar, confesso, nem nunca tinha pensado em fazer uma transição tão brusca”. 

Depois de um ano a transformarem a nova sede da Casca Rija – tem escritórios, um lounge e, claro, a zona de produção –, abriram portas em abril deste ano. “Apesar de estarmos mais deslocados dos grandes centros, estamos a meio do país, numa zona com muito acessos à indústria. O que notamos, por exemplo, é que se precisamos de contratar um serviço pode ser mais difícil – mas até aí há ajuda, há sempre alguém que nos indica uma outra pessoa que consiga fazer o que precisamos”. Em termos logísticos também não vê grande diferença. “Vendemos online e temos pontos de revenda em todo o país. Para nós foi uma mais valia termos vindo”. Aposta ganha? “Sem dúvida. Não equacionamos sequer voltar a Lisboa”.

Mobirise



MARISA RIBEIRINHO, CEO DA ‘SAL VERDE’, QUE NASCEU EM VILA REAL

DO CENTRO PARA O LUXEMBURGO 

Quem nunca teve sequer dúvidas a que sítio pertence é Paulo Pereira. “Sempre estive ligado às Beiras”, diz. E o produto que levou há dois anos ao programa “Shark Tank” e que se tornou numa das apostas mais rentáveis dos investidores é uma extensão dessa ligação: o gin Amicis, produzido em Anadia e aromatizado com 14 botânicos oriundos da zona centro do país.

Desde aí o Amicis espalhou-se pelos copos do país. Paulo vê “bastantes vantagens” na localização da sua empresa ligadas principalmente ao produto em si. “Não produzir aqui iria retirar identidade, até porque usamos produtos endógenos”, afirma, sublinhando que, no entanto, não consegue traçar nenhuma comparação com um grande centro porque nunca teve essa experiência.

Já como principais dificuldades, aponta “a quantidade de burocracia” que teve de enfrentar até começar a laborar. “Julgo que podiam ter gabinetes de apoio para acelerar os projetos”, aponta. A full-time, já há quatro pessoas a trabalhar na empresa. “Depois os restamos serviços contratamos externamente”, 
Até agora, já produziram sete lotes – cada um com duas mil garrafas – e já entraram no mercado luxemburguês. E o Amicis parece que vai mesmo espalhar-se pelo mundo: em cima da mesa, estão os mercados do Brasil, Singapura e China.

E do Alentejo para... Num estágio mais inicial está a City Check, uma app pensada por Tomás Caeiro no início de 2017 enquanto ainda era aluno de Gestão da Universidade de Évora e que permite que os utilizadores explorem os pontos turísticos da cidade através de jogos interativos. 

Mas é a partir de Évora que esta equipa quer conquistar terreno e é aqui que vão constituir a empresa em setembro. “Estamos em Évora nesta fase porque os custos são mais baixos, ainda para mais nesta altura em que ainda estamos a desenvolver o produto – e podemos fazê-lo em qualquer lado”. Neste processo, já ganharam alguns concurso, o que lhes deu “incubação gratuita” no Núcleos Empresariais (NER) de Évora. “Mas não é só por isso: o NER sempre nos apoiou desde a fase em que éramos basicamente uma ideia, e isso para nós significou bastante, ter pessoas com experiência que nos ajudaram a encarar as coisas de forma mais séria”.

No entanto, e apesar de a decisão de ficar na capital alentejana não ter sido contestada por nenhum dos investidores, foi-lhes aconselhado a manter um pé em Lisboa nesta primeira fase, “até para captar investimentos futuros e para fazer marketing”. Assim, vão continuar a ter Évora como sede e deslocar-se aos sítios onde há mais investidores “quando necessário”. Ainda assim, Tomás admite que nem tudo são rosas. “Há coisas que são um pouco mais difíceis. Quando estivemos em Lisboa durante um mês vimos as outras startups a fazer de forma mais fácil. Por exemplo, espalhar simplesmente a notícia de que estamos à procura de pessoal para trabalhar connosco, em Lisboa chovem pedidos, lá não encontramos ninguém e temos que ser nós a ir à procura quase porta a porta”.

E, aqui pelo meio, há alguma questão afetiva que os leve a optar pelo interior? “Não é por aí. A verdade é que há apoios em Évora que nós provavelmente não conseguiríamos arranjar em Lisboa nesta fase. É uma cidade mais pequena, com poucas startups, pelo que o nosso projeto é quase pioneiro. E as pessoas gostam desse tipo de situações e recebem-nos com mais facilidade”.

O projeto começa a correr sobre rodas: nos próximos dias, vão lançar oficialmente a app com conteúdos para Évora e... Lisboa.

EMPRESAS. APENAS 17% DA RIQUEZA PRODUZIDA NO PAÍS VEM DO INTERIOR

O litoral continua a cativar pessoas e empresas, em detrimento do interior, que continua a ver a localização como um entrave ao aparecimento de novos negócios e ao desenvolvimento das atividades já existentes. Ainda assim, existem vários casos de sucesso e a estes podem-se juntar outros quando começarem a ser aplicadas as medidas anunciadas pelo governo: redução do IRC e desconto nas portagens das ex-Scut. Mas empresários querem mais para melhorarem a sua competitividade económica 

TEXTOS | Sónia Peres Pinto

Só na faixa litoral está localizada 83% da riqueza produzida no país, deixando para o interior apenas 17%, que continua a surgir em segundo plano em termos de tecido empresarial. As contas são do Movimento pelo Interior. O fator localização continua a ser apontado como um dos principais entraves ao crescimento de algumas dessas empresas e, como tal, também se torna pouco atrativo para o aparecimento de novos negócios. Aliado a isso há que contar ainda com os custos extra de transporte que, para muitos, é visto com um gasto que asfixia a sua tesouraria. 

E os números falam por si: se formos para a Beira Baixa, encontramos pouco mais de 16 mil empresas. O número sobe ligeiramente se analisarmos o tecido empresarial do Alto Alentejo, que se fixa nas 20 mil. Já o Baixo Alentejo conta com 23 mil empresas, enquanto a região das Beiras e serra da Estrela contabiliza 43 mil empresas. Já Viseu ultrapassa as 57 mil, de acordo com os últimos dados da Pordata.

A verdade é que estes números ganham outra dimensão quando comparados com regiões do litoral. Por exemplo, só a Área Metropolitana do Porto conta com mais de 434 mil empresas, mas, se falarmos em Lisboa, são mais de 664 mil. 

Mas apesar de todos os obstáculos que existem para se desenvolver uma atividade numa região interior de Portugal, também é possível encontrar verdadeiros casos de sucesso no mercado português (ver casos ao lado). Aliás, a saída de alguns destes grupos para outras zonas do país iria representar uma espécie de “bomba atómica”, já que muitas dessas empresas são os únicos empregadores da região. 

CUSTOS RELACIONADOS COM TRANSPORTES GANHAM MAIOR RELEVO QUANDO SE FALA DE EMPRESAS LOCALIZADAS NO INTERIOR

DESCONTOS NOS TRANSPORTES

Depois de muitas reivindicações e a pensar nos custos elevados de transportes, o governo anunciou no início deste mês que irá avançar com um desconto de 30% nas portagens nas ex-Scut para os veículos pesados de mercadorias. O objetivo da medida é simples: contribuir para a competitividade da atividade económica no interior. O valor da redução no custo de portagem – que começou por ser de 15% – foi estudado nos últimos meses pelo Ministério das Finanças e pelo Ministério do Planeamento e das Infraestruturas.

No entanto, ainda não parece convencer os empresários, que já vieram dizer que lamentam que os descontos não sejam também aplicados aos ligeiros de mercadorias. “O governo prepara-se para anunciar uma medida que só beneficia, e mesmo assim pouco, as empresas de transportes”, reagiu o presidente da Associação Empresarial da Beira Baixa, José Gameiro. “E os empresários que não tenham pesados mas apenas ligeiros de mercadorias, que são a maioria daqueles que aqui existem? 

A redução ou eliminação de portagens é a medida que traria impactos imediatos nestes territórios”, afirmou o responsável.

Também a administradora da alfaiataria Dielmar, Ana Paula Rafael, afirmou que todos os anos pagam cerca de 110 mil euros em portagens por estarem sediados no interior. “Todas as semanas vamos buscar clientes a Lisboa e Porto. Temos um custo de contexto brutal”, admite. E a esta voz juntam-se muitas outras que apresentam contas semelhantes ou até mais elevadas.

Esta medida surge na sequência de um conjunto mais alargado de medidas destinadas a beneficiar o interior que será aprovado a seguir às férias. Uma delas já foi anunciada: trata-se da redução de IRC para as empresas que se instalem no interior. Feitas as contas, as empresas localizadas em regiões de baixa densidade populacional podem beneficiar de “reduções substanciais do IRC, podendo chegar até a uma coleta de zero, em função do número de postos de trabalho criados”.
Ao mesmo tempo, o executivo apresentou uma linha de crédito no montante de 100 milhões de euros, destinada exclusivamente a pequenas e microempresas situadas no interior, para financiamento de projetos de criação, expansão ou modernização de unidades produtivas. 

E as medidas não ficam por aqui. Está ainda previsto na reprogramação do Portugal 2020 e no âmbito dos sistemas de incentivos ao investimento empresarial exclusivamente dirigidos aos territórios do interior que haverá um programa de 1700 milhões de euros para apoiar investimentos no interior entre 2019 e 2021.

Mas o executivo tem acenado com uma série de medidas que tem vindo a aplicar neste domínio. António Costa já referiu que “logo em dezembro de 2015 foi constituída a Unidade de Missão para a Valorização do Interior, aprovando-se em outubro de 2016 o Programa Nacional de Coesão Territorial, em fase de avaliação, com 74% de medidas já executadas”. “Entre outras medidas, incorporámos nos sistemas de incentivos ao investimento empresarial critérios de discriminação positiva para os territórios de baixa densidade que nos últimos dois anos captaram 1840 milhões de euros de investimento privado, geradores de 8500 postos de trabalho. Apostamos na atração de investimento estrangeiro, com programas específicos dirigidos ao interior que já atraíram 375 milhões de euros de investimento”, acrescentou. 

CASOS

Embraer | Évora

A construtora aeronáutica brasileira Embraer conta com 450 trabalhadores diretos em Évora, assegurando também outros 120 postos de trabalho de profissionais ligados a prestadores de serviços. 

Faurecia | Bragança

A Faurecia, multinacional que produz componentes para o setor automóvel, é uma das maiores empresas exportadoras. Instalou-se em Bragança em 2001 e só aqui emprega mais de mil trabalhadores.

Visabeira | viseu 

Conta atualmente com mais de 10 mil colaboradores, divididos pelas várias empresas do grupo, e atingiu no ano passado um volume de negócios histórico: 638 milhões de euros.

Dielmar | Castelo branco 

A empresa de confeções emprega cerca de 400 pessoas, na sua grande maioria mulheres. Foi fundada em 1965 por quatro alfaiates e o nome é um acrónimo que resulta da junção dos nomes dos empresários. Conta com uma faturação anual na ordem dos 14 milhões.

Delta | portalegre

O grupo Delta, fundado em 1961 pelas mãos de Rui Nabeiro, conta atualmente com mais de três mil trabalhadores e cerca de 20% do volume de negócios são exportados. Está presente em 35 países através de operações diretas e indiretas. Em Portugal tem mais de 40% de quota de mercado.

GOVERNO. PROGRAMA DE COESÃO TERRITORIAL VAI TER SEGUNDA FASE E MAIS PROPOSTAS

Desde que foram anunciadas as propostas do Programa Nacional de Coesão Territorial já foram implementadas 122 medidas. Susana Amador explica que o programa está agora em fase de avaliação e poderá vir a integrar as ideias do Movimento pelo Interior. Bloco de Esquerda, PSD, CDS e Os Verdes também têm propostas

TEXTOS | Filipa Traqueia

Das 164 propostas avançadas pelo Programa Nacional de Coesão Territorial e pela Unidade de Missão para a Valorização do Interior, criados pelo governo no início de 2017, 122 já foram concretizadas. Em falta ficam 18 iniciativas que ainda não foram iniciadas e 24 que estão em curso. As 18 que faltam “têm a ver com áreas dispersas que vão desde a conexão à tecnologia”, explicou ao i a deputada Susana Amador. No entanto, o processo “está numa fase de avaliação e, por isso, também as propostas do Movimento pelo Interior e outras que possam surgir serão integradas para uma fase dois deste programa para a coesão do interior”, explica a deputada.

O Movimento pelo Interior, criado pelo presidente da Câmara da Guarda e dos Autarcas Social Democratas, Álvaro Amaro, apresentou um conjunto de ideias para a valorização da região interior baseado em três pilares: medidas para a política fiscal, medidas para a educação, ensino superior e ciência e medidas para a ocupação do território pelo Estado. Sobre a inclusão das medidas propostas no programa do governo, o autarca recusa a necessidade de negociação, uma vez que “agora só têm de decidir”. “Nós não podemos obrigar ninguém”, acrescentou, desafiando o governo a ter “coragem para aplicar estas medidas”.

Segundo as propostas integradas no relatório publicado em maio, os investimentos, sejam públicos ou privados, superiores a 25 milhões de euros, e que têm um regime de contratualização com o Estado, “só devem acontecer no interior”. Para além disso, Amaro destaca ainda a necessidade de aumentar para 25%, em seis anos, o número de alunos nas universidades e politécnicos do interior, a criação de um “Erasmus nacional” entre as faculdades e a transferência, “nos próximos 12 anos, de 25 serviços do Estado” para a região interior. “O que nós queremos não é as placas, é as pessoas. Os funcionários públicos, para virem, têm uma majoração de um ano de ordenado pago em três prestações”, explica Amaro, destacando ainda alguns incentivos ao nível da habitação.

Também a pensar na deslocação dos cidadãos para o interior, o governo anunciou, no âmbito da nova geração de políticas de habitação, o programa Chave na Mão, que facilita a mobilidade entre as zonas metropolitanas e o interior. O programa permite que um habitante de Lisboa, por exemplo, possa ir trabalhar e morar para Castelo Branco, celebrando um contrato de gestão e arrendamento com o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), que fica responsável pelo aluguer do imóvel com rendas acessíveis e durante o período necessário.

ÁLVARO AMARO DESAFIA O GOVERNO A TER “CORAGEM PARA APLICAR AS MEDIDAS” PROPOSTAS PELO MOVIMENTO PELO INTERIOR

O QUE JÁ ESTÁ A SER FEITO 

São 122 as propostas do Programa Nacional de Coesão Territorial que já entraram em vigor e Susana Amador enumerou algumas das medidas: o concurso dos médicos, que abriu e preencheu 150 vagas nas zonas interiores, a abertura de 43 juízos de proximidade – tendo 20 deles resultado da reabertura de tribunais encerrados pelo governo anterior –, a melhoria das forças de segurança da GNR e da PSP, a criação de cursos técnicos profissionais nos politécnicos, que integraram mais de 12 mil alunos, e a possibilidade de atribuição do grau de doutoramento pelos institutos que reúnam as condições exigidas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). “Captar estudantes é captar juventude, dinâmica e vida para as cidades”, reforça a deputada. 
“Nós conseguimos valorizar e mostrar às pessoas que viver no interior é bom, é viver numa zona que lhes oferece um ambiente melhor, mais diversidade, mais biodiversidade, e tudo isso pode ser uma vantagem competitiva para as empresas”, diz ainda a deputada, reforçando que no interior, “sobretudo, há qualidade de vida”.

Também os partidos com representação parlamentar têm vindo a apresentar propostas para melhorar a coesão territorial. O PSD defende há vários anos a criação de um estatuto dos territórios de baixa densidade, explica Manuel Freixo, presidente da comissão política distrital de Castelo Branco e ex-autarca do Fundão. “Para nós, não basta falar no interior, é preciso que o interior esteja consagrado na lei com um estatuto próprio que faça com que os decisores políticos obrigatoriamente tenham de proteger estes territórios mais vulneráveis e mais carenciados.” Os sociais-democratas têm ainda uma proposta para a criação de um estatuto fiscal para o interior que está em discussão no parlamento.

A questão dos benefícios fiscais é também defendida pelo CDS, que pretende a criação de uma zona franca, e pel’Os Verdes que, depois de terem aprovado no Orçamento do Estado de 2017 essa proposta, pretendem apresentar na discussão no novo Orçamento para 2019 o aumento do estímulo fiscal. “O que o governo nos disse na altura – e compreendemos que assim seja – foi que era preciso fazer uma avaliação dessa medida, aquilo que representou em 2017, e quando negociámos o Orçamento de 2018 ainda não tínhamos esse estudo”, explica o deputado José Luís Ferreira.

Para além do estatuto fiscal, Os Verdes querem ver o governo a investir na agricultura familiar, tendo apresentado uma proposta esta semana na Comissão de Agricultura e Mar. “Nós consideramos que a questão da agricultura é fundamental para o interior”, afirma o deputado, defendendo que “é preciso apostar na nossa produção nacional para criar postos de trabalho, para que as pessoas se fixem no interior do país.”

PARA SUSANA AMADOR, O MAIS IMPORTANTE É “VALORIZAR E MOSTRAR ÀS PESSOAS QUE VIVER NO INTERIOR É BOM”

“Ter uma estratégia para o interior do país que não fale de agricultura é como ter uma estratégia para o litoral do país que não fale de mar”, afirmou Pedro Mota Soares, do CDS. E avança também a preocupação de repensar a forma como é armazenada a água nessas zonas. “Hoje, uma das coisas que nós percebemos que vão continuar a existir e que é um assunto sensível é a dimensão das alterações climáticas. Estamos em junho e está a chover, viemos de três anos de seca. Portanto, a forma como temos de programar o armazenamento de água vai ser absolutamente crucial para todos os efeitos: abastecimento das populações, energia e agricultura”, alertou.

Do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, para além da aposta na criação de emprego, Pedro Soares defende o investimento nos serviços públicos. “As pessoas que vivem em regiões de baixa densidade demográfica não podem ser tratadas como pessoas de segunda. São portugueses como todos os outros, portanto têm de ter acessibilidade aos serviços públicos essenciais”, afirma, referindo-se ao Serviço Nacional de Saúde, à educação e à justiça, mas também aos CTT e a à Caixa Geral de Depósitos.

“Estarmos aqui a falar do interior e falar da necessidade de medidas de modo a contrariar o despovoamento do interior, mas não conferir a essas populações a capacidade de decisão sobre a sua própria estratégia de desenvolvimento dos seus territórios e comunidades, parece-me que é uma enorme hipocrisia política”, diz ainda o deputado bloquista, defendendo a regionalização. Sobre o poder local, Os Verdes querem ainda que haja reposição das freguesias que foram extintas durante o governo PSD/CDS.

O i não conseguiu entrar em contacto com o PCP. No entanto, Jerónimo de Sousa defendeu no debate quinzenal de 23 de maio que o interior “exige respostas estruturais, um leque amplo de políticas integradas, dinamizadas regionalmente; exige a regionalização; exige uma outra política agrícola e florestal, outra visão para reindustrializar o país e as redes de distribuição comercial, criar emprego estável, bem remunerado e com direitos; exige o aproveitamento e potenciação de todos os recursos nacionais – nomeadamente mineiros e energéticos; exige Orçamentos do Estado e fundos comunitários com forte discriminação positiva para os territórios com forte desertificação”.

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